AFP PHOTO / TOBIAS SCHWARZ
AFP PHOTO / TOBIAS SCHWARZ

Dois anos depois, acolhida de refugiados continua dividindo a Alemanha

Cerca de 200.000, dos mais de 1 milhão de refugiados que chegaram ao país desde 2015, encontraram emprego legal até o momento; onda de hostilidade, especialmente no empobrecido leste do país, antes comunista, ameaça tolerância e solidariedade

O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2017 | 07h00

BERLIM  - O estudante sírio Moataz Ghannam acredita que muitos alemães não entenderam a chanceler Angela Merkel quando ela pronunciou sua famosa frase "podemos conseguir isso", em um momento em  que a chegada de refugiados ao país chega a seu ponto máximo.

"Eu não considero um fato - 'podemos fazer isso agora' - mas um objetivo: todos precisamos trabalhar juntos, refugiados e alemães", afirmou o jovem, de 27 anos.

A odisseia de Ghannam de seu país arrasado pela guerra até a maior potência econômica da Europa representa uma completa história de sucesso. Recentemente foi convidado a participar em um comitê, junto com Merkel, para avaliar os progressos feitos nos últimos dois anos.

Ghannam poderá terminar seus estudos em administração de empresas em uma universidade privada de Berlim, em parte graças à ajuda da organização sem fins lucrativos Kiron, com sede na capital alemã.

A Kiron Open Higher Education, que ajuda 2.700 estudantes estrangeiros, mais de 40% deles sírios, é um dos projetos que Merkel visitou às vésperas das eleições legislativas neste domingo, 24.

Com um alemão fluente, Ghannam explicou que, na sua opinião, a mensagem de Merkel, que se mostrou confiante na capacidade da Alemanha para acolher os refugiados, havia forçado muitos a enfrentar seu medo do desconhecido.

"A Alemanha é uma terra de oportunidades, mas é preciso se esforçar, você não pode ficar sentado em casa ou esperar algo da seguridade social", afirmou. 

Cerca de 200.000, dos mais de um milhão de refugiados que chegaram ao país desde 2015, encontraram um emprego legal até o momento, embora as previsões para o restante variem sensivelmente. 

Cultura de acolhida

No fim do verão de 2015, milhares de pessoas que haviam fugido da guerra e da miséria chegavam diariamente às estações de trem alemãs. 

Ali eram recebidos por multidões de pessoas que lhes davam boas-vindas e o afluxo deu lugar ao nascimento de uma nova palavra, "Willkommenskultur" (cultura de acolhida), provando que o país estava no lado bom da História.

Mas também houve uma onda de hostilidade e caos, especialmente no empobrecido leste do país, antes comunista. Vários centros de refugiados foram incendiados e numerosos solicitantes de refugiados têm recebido ameaças em algumas áreas rurais. 

Uma série de agressões sexuais no Ano Novo de 2015 em Colônia, pelas quais migrantes do norte da África foram responsabilizados, e vários atentados islamitas ameaçaram pôr fim ao sentimento de tolerância e solidariedade.

Os comentaristas começaram a falar do obituário político de Merkel. Dois anos depois, entretanto, a chanceler, no poder desde 2005, parece mais do que preparada para assumir um quarto mandato. 

Seu principal rival, o social-democrata Martin Schulz, a apoia em sua política para refugiados, uma das principais preocupações dos eleitores.

O número de chegadas diminuiu em razão do fechamento da chamada rota dos Bálcãs e da assinatura do controverso acordo com a Turquia para frear o fluxo. Enquanto isso, as previsões apocalípticas dos muitos céticos, incluindo alguns de seus aliados políticos e do presidente americano, Donald Trump, não se concretizaram.

Tabuleiro político mudado

Markus Kressler, co-fundador da Kiron, afirmou que o programa pretende que todos os esforços iniciais para a integração dos refugiados não caiam no vazio. 

"Não queremos ter que nos apoiar na ideia de que o espírito do 'podemos conseguir isso' vá durar, pois isso sempre acontece no começo de situações de crise, mas depois o clima político muda", disse.

Apesar da vantagem de 15 pontos de Merkel nas pesquisas, o tabuleiro político da Alemanha se alterou significativamente nos últimos dois anos.

O partido anti-imigração Alternativa pela Alemanha (AfD) conseguiu convencer os eleitores desiludidos dos maiores partidos e entrou em 13 dos 16 Parlamentos regionais do país.

Sua popularidade caiu desde que atingiu um ápice no final de 2016, mas as pesquisas continuam lhe atribuindo, pelo menos, 10%, ou seja, 60 assentos no mínimo na câmara baixa do Bundestag.

Merkel se mantém firme em sua mensagem. "Era importante e justo que nos encarregássemos dessas pessoas de forma urgente, como também é encontrar estruturas fortes (para integrá-los) no longo prazo", declarou aos jornalistas no mês passado. / AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.