Dois candidatos, uma política externa

O que se viu no debate foi um consenso entre democratas e republicanos na forma de ver o mundo

AARON DAVID MILLER - THE NEW YORK TIMES | É VICE-PRESIDENTE DO WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER FOR SCHOLARS, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2012 | 02h04

Assistindo ao debate presidencial sobre política externa, na semana passada, o espectador poderia ter a impressão de ver no palco um único candidato em vez de dois.

Assim como Barack Obama parecia uma versão menos ideológica e irresponsável de George W. Bush (ver o reforço de tropas no Afeganistão, a manutenção de Guantánamo, os ataques com drones), Mitt Romney mostrou que poderia se tornar uma espécie de Barack Obama no tratamento das principais questões de política externa.

A mensagem fundamental é a seguinte: embora os americanos estejam divididos em matéria de política interna, estão unidos quanto ao que fazer (ou não) no mundo complexo, cruel e com poucas oportunidades que existe além das nossas plagas.

Em primeiro lugar, houve um nítido esforço de Romney para apresentar-se como uma possibilidade confiável de mudança em um mundo perigoso, particularmente para atrair os eleitores independentes temerosos de que sua vigorosa retórica represente uma tendência para aventuras militares no exterior. Os assessores de Romney pareceram determinados a atenuar a violenta atuação do governador no debate anterior, principalmente no que se referia à Líbia.

Em segundo lugar, o que se viu no terceiro debate foi muito mais do que uma triangulação obstinada ou politicagem barata. E isso nos remete a um fato extraordinário: o que se destaca na segunda década depois do 11 de Setembro é um considerável consenso entre democratas e republicanos em torno de um enfoque fundamental na política externa dos EUA.

Evidentemente não se trata de um alinhamento perfeito. Mas, raras vezes, desde o fim da Guerra Fria, existiu o atual grau de consenso.

Na realidade, ainda que os americanos estejam divididos, polarizados e tenham algumas discrepâncias a respeito dos problemas internos, na realidade, estão muito unidos na maneira de ver o mundo e no que se refere ao que fazer a respeito.

Em terceiro lugar, ouvindo os dois aspirantes à presidência poderíamos pensar que assistíamos a um debate sobre política externa entre os personagens gêmeos de Alice no País das Maravilhas, "Pode ser que sim" e "Pode ser que não".

Do Iraque à morte de Bin Laden e ao uso de drones, ao Irã e a Israel, e até mesmo à tragédia de Benghazi (o desastre que os republicanos esperavam que pudesse continuar rendendo), o que percebemos são distinções nem tão grandes entre si.

Em quarto lugar, percebemos que o novo consenso é motivado por vários princípios que qualquer político americano dotado de sensibilidade precisa respeitar: consertar nossa casa dilapidada e acertar os cinco fatores que contribuem para mantê-la nesse estado: endividamento, déficits, uma política capenga, uma infraestrutura caindo aos pedaços e a dependência do petróleo do Oriente Médio.

Mas, mesmo assim, defender a casa dilapidada. Matar os caras maus antes que eles nos matem, sem que seja preciso invadir nações e, portanto, nos tornando responsáveis por sua reconstrução.

Convergência. Acabar com as guerras e não começar novos conflitos. Nesse caso, a convergência a respeito do Iraque e do Afeganistão entre Obama e Romney foi incrível, assim como a prudência e o comedimento em relação à Síria e ao Irã.

E delegar: criar uma comissão ou um processo sempre que possível. Quem introduziu o termo "liderar dos bastidores" errou somente na embalagem.

A escolha das palavras foi errada, mas a ideia estava certa. Os americanos não podem salvar o mundo por si próprios, nem devem esperar tal coisa, nem os outros devem esperá-la.

Se liderar diretamente significar desastres como o Afeganistão e o Iraque, quem vai querer isso? Os EUA estão saindo agora das duas guerras mais longas da história americana, em que o critério não era 'pode-se ganhar?' e sim 'conseguirão sair?'. O fantasma dessas duas guerras continuará por muito tempo a refrear projetos arriscados do poderio americano no exterior.

Finalmente, o principal desafio é decidir quando e como projetar o poderio americano e intervir com sucesso de um modo que se coadune com os interesses e recursos.

Multilateralismo e processo tornaram-se palavras feias durante os anos de Bush e certamente não são parâmetros heroicos e corajosos. De fato, são longos e complicados, pois dependem dos outros. Mas podem ser muito úteis, particularmente quando interesses americanos vitais não estão envolvidos.

Independentemente de quem se tornará presidente, o Irã será o teste decisivo do funcionamento desse novo consenso. Três governos prometeram impedir o Irã de adquirir armas nucleares; o tratamento que o próximo governo der a essa questão poderá servir de medida de sua eficácia e credibilidade.

O consenso exibido no debate da semana passada diz respeito ao fato de que o mundo é um lugar mais complicado do que nunca, e tanto os democratas quanto os republicanos estão aprendendo que não podem controlá-lo. Isso não significa que os Estados Unidos não possam liderar ou proteger os próprios interesses; significa apenas que os líderes americanos precisam ser mais disciplinados a respeito de como e quando projetar seu poderio.

A nova divisão em política externa é clara. Não é uma questão de esquerda e direita, liberal ou conservadora, republicana ou democrata.

Ela se refere à tomada de decisões inteligentes ou burras e espero que o próximo presidente saiba exatamente de que lado os EUA querem ficar. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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