A reconstrução da catedral de Paris

A reconstrução da catedral de Paris

Primeira discussão tem relação com a forma; a segunda está ligada ao financiamento

Helio Gurovitz, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2019 | 05h00

Dois debates cercam reconstrução de Notre-Dame

O presidente Emmanuel Macron prometeu a Notre-Dame restaurada em cinco anos, a tempo da Olimpíada de Paris, em 2024. Arquitetos e historiadores estimam em ao menos dez anos o tempo necessário para reerguê-la. Dois debates cercam a reconstrução. O primeiro diz respeito à forma. O segundo, ao financiamento.

Ao longo da semana, a França se transformou numa nação de arquitetos. Em debate, a nova flecha no alto da catedral. Para Benjamin Mouton, ex-chefe dos restauradores da Notre-Dame, ela deve ser idêntica à que desabou (projetada e instalada no século 19). É a opinião de políticos conservadores e nacionalistas. Outros defendem formatos inovadores. Um concurso nacional decidirá a questão.

Outra dúvida é se o teto deve ser refeito em madeira. O serviço florestal afirma dispor de árvores suficientes para reconstituir a “floresta” de carvalhos consumida pelo fogo. Nas catedrais de Reims e Chartres, tetos destruídos foram refeitos em materiais mais resistentes: metal e concreto.

Quanto ao financiamento, políticos de esquerda e “coletes amarelos” criticaram as doações de bilionários, mesmo daqueles que garantiram não atrelá-las a benefícios fiscais. É uma crítica falaciosa. Ainda que seja defensável tapar as brechas que permitem aos ricos pagar menos imposto, elas nada têm a ver com a Notre-Dame. Sem doar, haveria outras formas de driblar o fisco. A maior penalizada seria a reconstrução, pois contaria com menos recursos.

Game é inútil, mas tecnologia 3D será essencial

No combate ao incêndio, os bombeiros foram ajudados por drones e robôs, para decidir a melhor estratégia de evitar a propagação do fogo. Na restauração, a tecnologia digital também será decisiva. Poucos lugares geraram tantos modelos tridimensionais quanto a Notre-Dame. Os mais grosseiros, como o do videogame Assassin’s Creed, não terão utilidade. Os mais detalhados, como o da empresa parisiense Targo ou o de Andrew Tallon, historiador da Universidade Vassar, que morreu em novembro, serão essenciais.

Os dois principais obstáculos à restauração

As duas maiores dificuldades da restauração nada têm de virtual. A primeira é avaliar o dano causado às pedras pelo calor. Embora as paredes tenham resistido, isso não garante que suportarão o peso do novo teto. A segunda é a carência de artesãos. A França é o país com mais mão de obra qualificada para restauração, mas associações de trabalhadores manuais manifestam dúvidas sobre a quantidade de profissionais com técnica à altura dos desafios da Notre-Dame.

Proteção contra incêndio em outras catedrais

A discussão do restauro ainda passa longe das técnicas de proteção ao fogo. Na Catedral de Estrasburgo, paredes foram projetadas para deter a propagação. Sob o madeirame do telhado da Catedral de São Patrício, em Nova York, foi instalado, na restauração de 2012 a 2015, um sistema de tubulações que conduz a 246 bicos capazes de aspergir água nebulizada em caso de fogo, uma técnica que não encharca as instalações. O sistema custou US$ 1,1 milhão, US$ 350 mil a mais que o sistema tradicional de sprinklers, numa restauração orçada em US$ 177 milhões.

Abelhas sob teto resistem ao fogo

O incêndio na Notre-Dame não deixou feridos. Até as cerca de 180 mil abelhas da variedade Buckfast, criadas em três colmeias sob o teto da sacristia desde 2013, resistiram ao fogo, cujo centro ficou a 30 metros delas. A espécie é conhecida pela agressividade baixa, que lhe permite adaptar-se melhor à apicultura urbana.

História ecumênica liga Notre-Dame a judaísmo 

Católica, a Notre-Dame tem uma ligação histórica ecumênica com o judaísmo. É a única catedral gótica a exibir na fachada estátuas dos 28 reis de Israel. Derrubadas e decapitadas na Revolução Francesa, pelo populacho que acreditava tratar-se de reis franceses, foram depois restauradas. Em 2007, foi palco da missa fúnebre em homenagem ao cardeal de Paris, Jean-Marie Lustiger, judeu convertido ao catolicismo na adolescência e sobrevivente do nazismo (a mãe dele morreu em Auschwitz). Numa liturgia inusitada, a missa começou com o Kaddish, a reza judaica dos mortos.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.