Paulo Beraldo/Estadão
Paulo Beraldo/Estadão

Dois dias após desfile militar, Índia pede 'união do país' em festa típica

Região histórica de Nova Délhi tem feira multicultural para exaltar o 'espírito da Índia'; em meio a protestos, país pede união 

Paulo Beraldo, enviado especial, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2020 | 22h18

NOVA DÉLHI - Dois dias após a data magna da Índia - o Dia da República - que teve o presidente Jair Bolsonaro como convidado de honra, a capital do país continua em clima de festa. Autoridades locais aproveitaram o momento para pedir a união do país, que vem enfrentando protestos religiosos. Logo à frente do Forte Vermelho, fortaleza construída em 1639 e ponto turístico da chamada 'Old Delhi', a parte antiga dessa metrópole de quase 30 milhões de habitantes, o festival Bharat Parv atraiu milhares de turistas de diversas partes da Índia.

A celebração, que dura toda a semana e integra as ações do Dia da República, teve dois temas: um eram os 150 anos do nascimento do líder pacifista Mahatma Gandhi - tido como um 'pai da nação' e decisivo no processo de independência 1947. A outra era um pedido de união: "Uma Índia unida é uma grande Índia". 

A feira Bharat Parv é organizada pelo Ministério do Turismo e tem como objetivo celebrar "o espírito da Índia", encorajando os visitantes a conhecerem um pouco mais desse país multicultural de 1,3 bilhão de habitantes e mais de 20 idiomas. Ocorre este ano pela quarta vez em um momento em que o país vivencia protestos de muçulmanos contra a chamada lei da cidadania, que facilita a obtenção de cidadania indiana por refugiados de minorias religiosas dos países vizinhos - como Paquistão, Afeganistão e Bangladesh -, mas não para os islâmicos. Há cerca de 200 milhões de muçulmanos na Índia e a medida é vista por eles como discriminatória. O governo nega. A região de Shaheen Bagh, ao sul da capital, tem protestos não-violentos há 44 dias seguidos. 

Uma das placas em que as pessoas mais tiravam fotos dizia em hindu: "Olhe para o seu país". O Estado passou uma tarde na feira e encontrou pessoas de diferentes regiões do país. Além das roupas diferentes e dos idiomas distantes do inglês falado por uma pequena parcela da população, as placas dos carros nos estacionamentos abarrotados ao redor comprovavam as origens. Bandas das Forças Armadas se revezavam com as performances culturais, danças populares e tribais. Famílias, amigos e crianças brincavam no gramado ao som das músicas típicas que se alternavam.

"Aqui você pode ver a cultura de muitos Estados apresentada e isso ajuda as pessoas a conhecerem melhor a rica cultura da Índia", comentou o estudante de engenharia Krishan Tripathi, de 20 anos, que veio de uma pequena cidade do interior com a família e hoje vive em Délhi. "Esse festival faz pessoas de 'diferentes mundos' interagirem e ajuda a dar um sentimento patriótico, em especial para as crianças, já que por conta da influência estrangeira a cultura da Índia está sofrendo". 

A Bharat Parv exibiu os 'carros alegóricos' que desfilaram domingo na principal avenida de Nova Délhi com temas que vão desde marcos arquitetônicos da Índia, comidas típicas e até startups, setor da economia que tem crescido e impulsionado o país que tem crescido a taxas superiores a 7% nos últimos anos. As Forças Armada estavam em destaque: o país gosta de lembrar que é um dos poucos com capacidade nuclear, assim como o vizinho Paquistão, com quem a relação não é das melhores.  

Os cerca de 50 stands espalhados pela feira traziam artesãos para comercializar joias, quadros, produtos têxteis, alimentos - muito diferentes e variados entre si. Cada um dos 28 Estados indianos tinha seu espaço: dos que beiram as montanhas do Himalaia aos próximos ao Oceano Índico, no extremo sul. Os dados desses Estados chamam a atenção: desde Uttar Pradesh, cuja população chega a 200 milhões, similar à do Brasil, até o Punjab, na fronteira com o Paquistão, cuja maioria da população é do povo sikh, identificado pelo uso de turbantes característicos nos homens e lenços que cobrem parte do rosto das mulheres. Há cerca de 20 milhões de sikhs na Índia - população maior que a do Chile

Um dos espaços mais visitados era um stand com dez pinturas de artistas locais retratando os 150 anos do nascimento de Gandhi. O líder pacifista foi assassinado em 1948 por um fanático hinduísta que discordava da ideia de tolerância religiosa, o que fortaleceu ainda mais sua imagem de mártir. Gandhi também defendia uma sociedade sem exploração em que todas as pessoas pudessem defender e sustentar seus direitos. Por fim, um grande painel trazia vídeos dos desfiles de domingo. Ali, um rosto incomum aos indianos era familiar aos brasileiros: o do presidente Jair Bolsonaro, sempre ao lado do primeiro-ministro Narendra Modi

Tudo o que sabemos sobre:
Índia [Ásia]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.