Dois escândalos atingem Ahmadinejad em fim de mandato

Os casos devem isolar ainda mais o presidente iraniano

SÃO JORNALISTAS, RICK GLADSTONE, CHRISTINE HAUSER, THE NEW YORK TIMES, SÃO JORNALISTAS, RICK GLADSTONE, CHRISTINE HAUSER, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2012 | 03h04

O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, do Irã sofreu embaraços em dois casos judiciais politicamente delicados na segunda-feira, no que analistas iranianos chamaram de um possível sinal de maior isolamento em seu último ano no cargo.

Quatro pessoas foram condenadas à morte num escândalo de desfalques de US$ 2,6 bilhões ligado indiretamente a um assessor de alto escalão de Ahmadinejad e ocorrido no mandato deste. As sentenças, divulgadas pela mídia oficial, foram as primeiras das 39 pessoas condenadas no caso de desfalque que vem se desenrolando no Irã desde que foi descoberto no ano passado. O Judiciário não identificou os quatro sentenciados, que têm o direito de recorrer. Mas analistas iranianos disseram que muitos implicados no desfalque estavam ligados a pessoas nomeadas pelo governo Ahmadinejad.

No segundo caso, a Suprema Corte ordenou a demissão de Saeed Mortazavi de seu cargo de diretor executivo do Fundo de Seguridade Social, que administra ao sistema previdenciário do Irã. Ele é um ex-promotor de Teerã menosprezado por dissidentes iranianos por seu papel na repressão dos protestos que ocorreram após a reeleição com suspeita de fraude de Ahmadinejad, em 2009. Quando um comitê parlamentar investigou os abusos após a eleição descobriu que Mortazavi fora responsável pela tortura e morte de pelo menos três manifestantes, entre eles o filho de um funcionário de alto escalão.

Ahmadinejad reagiu promovendo Mortazavi, que fazia parte de seu círculo de amizades. Não ficou claro se a ordem judicial implicaria alguma acusação criminal a Mortazavi, que sempre negou as acusações do comitê parlamentar. Mas sua demissão foi uma clara censura a Ahmadinejad.

"Pato manco (político em fim de mandato que não pode se reeleger) é muito aplicável a ele", disse Hadi Ghaemi, diretor executivo da International Campaign for Human Rights, uma associação de defesa de direitos de Nova York. "As sentenças, o caso de fraude sendo processado com tanta publicidade, além da censura a Mortazavi são indícios de que vem mais coisa por aí."

No que pareceu uma possível retaliação de elementos pró-Ahmadinejad, o procurador-geral da Província de Teerã foi citado pela agência oficial na segunda-feira, dizendo que Mohammad Javad Larijani, um membro da poderosa família conservadora que se opõe a Ahmadinejad, pode ser processado por fraude fundiária nos próximos dias. Um dos irmãos de Larijani, Sadegh, é chefe do Judiciário no Irã, o que torna essa revelação ainda mais embaraçosa.

Ahmadinejad já teve grande apoio do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Os dois tiveram um desentendimento público no ano passado que provocou especulações sobre uma divisão e, desde então, têm sido feitos numerosos ataques a Ahmadinejad por membros do Parlamento e clérigos influentes que o tentam prejudicar. Mas diante das pressões internacionais sobre o programa nuclear iraniano, os dirigentes tentaram apresentar uma face pública de unidade e deixar de lado suas diferenças. Khamenei indicou que apoia a conclusão do mandato de Ahmadinejad, que termina em junho.

Ahmadinejad não foi acusado de envolvimento no caso de desfalque. Mas a magnitude do delito foi particularmente vexatória para Khamenei, que exortara os procuradores a encontrar os responsáveis e "cortar as mãos" dos culpados.

O procurador encarregado do caso, Gholam Hossein Mohseni-Ejei, foi citado pela imprensa estatal como dizendo que além dos quatro acusados condenados à morte, dois receberam penas perpétuas e outros penas de até 25 anos de prisão.

Os primeiros sinais de desfalque generalizado foram descobertos em setembro no Banco Melli, o maior banco comercial do Irã, e culminaram no julgamento, que começou em fevereiro. As autoridades disseram que o escândalo tinha se ampliado por envolver o uso de documentos forjados para obter crédito em pelo menos sete bancos estatais e privados iranianos. O dinheiro foi usado durante quatro anos para comprar companhias estatais, elas disseram.

Adversários de Ahmadinejad no Parlamento associaram o caso a seu ex-chefe de gabinete, Esfandiar Rahim Mashael, e outos sócios que tiveram relações com o principal suspeito, Mahsarid Amir-Mansour Khosravi, um empresário dono de ao menos 35 empresas. Mohseni-Ejei disse que Khosavi confessou enquanto estava sob custódia e começou a cooperar com as autoridades.

Segundo a agência iraniana Fars, as autoridades iranianas pediram ao Canadá que devolva um suspeito no caso, Mahmoud Reza Khavari, um ex-diretor-geral do Banco Melli que fugiu do país em setembro quando o escândalo estourou. O Irã não tem tratado de extradição com o Canadá, onde Khavari tem dupla cidadania. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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