Dois líderes para duas potências

Países em que descontentamento é geral, incapazes de solucionar seus problemas, tendem a dar vazão a sua ira em ações no exterior

O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2012 | 02h07

Numa mesma semana descobrimos quem serão os próximos líderes das duas superpotências atuais: Barack Obama e Xi Jinping. A diferença é que só soubemos que Obama continuaria na presidência dos EUA por mais quatro anos na terça-feira. Ao passo que estávamos cansados de saber que o processo iniciado hoje, no Grande Salão do Povo, sagraria Xi como o novo líder do Partido Comunista Chinês - e a partir de março de 2013 ele será o novo presidente da China.

A coincidência levanta duas questões: Qual das duas superpotências está ficando mais forte? E em qual delas a crise do sistema econômico e político é mais grave? Ainda que isso pareça contraditório, as respostas são: a China e a China.

Graças às suas dimensões territoriais, às "vantagens" que o atraso proporciona ao desenvolvimento, à formação imperial do aparato estatal, a um povo empreendedor e a um forte e manifesto anseio individual e coletivo por "riqueza e poder" (uma frase proverbial em chinês), a China se tornará relativamente mais forte e, como todo poder é relativo, os EUA se tornarão relativamente mais fracos. No entanto, das duas nações, é também a China que tem os problemas sistêmicos mais profundos, os quais, se não forem enfrentados, podem tanto postergar sua ascensão, como transformar o Estado chinês num agente instável, imprevisível e até agressivo. Nos últimos cinco anos, desde antes do fim do governo Bush, os EUA enfrentaram muitas dificuldades. Sem qualquer espírito de porco, antevejo que nos próximos cinco anos será a vez da China passar por maus bocados.

Amplamente abordados durante a campanha eleitoral, os problemas dos EUA são de conhecimento geral. No discurso que proferiu após a vitória, um discurso que por vezes parecia mais uma aula de civismo, Obama também se referiu a eles. A dívida e o déficit públicos, a paralisia decisória do Congresso, um código tributário mais extenso que a Bíblia, a infraestrutura e as escolas em estado deplorável, a dependência do petróleo importado, a asfixia da política pelo dinheiro.

Não subestimo a dificuldade em lidar com essas questões. Mas todos nós estamos a par delas e esse é o ponto. Não conhecemos a verdadeira extensão dos problemas da China, pois a imprensa chinesa não pode falar livremente sobre eles. Nas deliberações oficiais, emitidas por órgãos do aparelho estatal-partidário, os problemas são mascarados por uma linguagem ideológica cifrada.

É bem verdade que alguns dos desafios que se colocam para o desenvolvimento econômico chinês existiriam mesmo que o país contasse com o melhor sistema político do mundo. A China teve a maior e mais rápida revolução industrial da história da humanidade. Em 30 anos, sua população urbana aumentou em 480 milhões de pessoas, de modo que mais da metade dos chineses hoje vive em cidades. É possível que a economia esteja na iminência de atingir o chamado "ponto de inflexão lewisiano", quando a oferta de mão de obra barata, garantida pelo vasto contingente de trabalhadores saídos do campo, começa a se extinguir. O país precisa cuidar de sua demanda interna, pois não pode esperar que os EUA continuem a desempenhar o papel de "consumidor de última instância" de seus produtos.

No entanto, muitos dos problemas chineses de fato derivam do singular modelo, a que talvez possamos chamar de "capitalismo leninista", em vigência por lá. Já que o mecanismo eleitoral americano foi tão esmiuçado nos últimos dias, peço licença para chamar a atenção do leitor para a versão de colégio eleitoral que os chineses criaram. 2.270 delegados ao 18.° Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês, que começa hoje, "elegerão" os 370 membros do Comitê Central, que por sua vez "elegerão" os 25 membros do Politburo, que por sua vez "elegerão" um Comitê Permanente constituído de nove - ou talvez agora apenas sete - indivíduos que formam a cúpula do Estado-partido. Na realidade, todas as indicações mais importantes foram decididas com antecedência, com base em intrigas e negociações a portas fechadas que certamente contariam com a aprovação de Vladimir Ilyich Lênin.

Ao mesmo tempo, porém, o enorme Estado chinês atua com um impressionante grau de descentralização, sobre o qual o partido exerce um controle muito reduzido, e tem total liberdade para conduzir um tipo híbrido de capitalismo capaz de fazer derreter a cera da máscara mortuária de Lênin. O resultado é um desenvolvimento econômico dinâmico, mas deformado, em que, por exemplo, os governos municipais acumulam montanhas de dívidas impagáveis com instituições financeiras controladas, em última instância, pelo Estado-partido. Dizer que a alocação de capital na China é "quase ótima" seria o cúmulo do eufemismo.

É bem possível que o elo entre dinheiro e política esteja no cerne do bloqueio sistêmico que acomete os EUA, mas a China padece do mesmo mal. Nos países do Leste europeu que faziam parte do antigo bloco soviético, veem-se hoje velhas lideranças comunistas que se tornaram praticantes endinheirados do "capitalismo em uma família". Seus colegas chineses também adotaram essa versão aprimorada do "socialismo em um país", mas continuam sendo lideranças comunistas. Um levantamento recente da Bloomberg estima a fortuna da família do futuro presidente Xi em quase US$ 1 bilhão. Segundo o New York Times, os bens da família de Wen Jiabo, o atual presidente chinês, devem somar cerca de US$ 2,7 bilhões. Isso significa que, juntas, as duas famílias poderiam ter financiado toda a campanha eleitoral americana.

Na China, como em qualquer outro lugar, uma crise pode agir como agente catalisador de reformas ou de revolução. Esperemos que sejam reformas. Ainda que venham a acontecer, porém, essas reformas cada vez mais urgentes dificilmente resultarão, no curto - ou mesmo no longo - prazo, em uma democracia liberal de estilo ocidental. Mas até alguns analistas do Partido Comunista reconhecem que o futuro da China depende de mudanças que garantam ao país maior segurança jurídica, mecanismos de "accountability", um sistema de seguridade social e um desenvolvimento ecologicamente sustentável.

Aí é que está o busílis. Nós que vivemos em outras partes do planeta temos um interesse existencial no sucesso das reformas, tanto nos EUA, como na China. Nos conflitos entre os chineses e os aliados dos EUA na região Ásia-Pacífico, como o Japão, tem-se observado uma belicosidade perturbadora, dado o estágio relativamente inicial da rivalidade entre as duas superpotências. Uma sondagem recente do instituto Pew revela que a desconfiança mútua entre chineses e americanos vem crescendo a passos largos. Países em que o descontentamento é generalizado e se mostram incapazes de solucionar internamente os seus problemas estruturais, tendem a dar vazão a sua ira no exterior. Torçamos para que esses dois se safem. / TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER

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