REUTERS/Oswaldo Rivas
REUTERS/Oswaldo Rivas

Dois manifestantes são mortos em igreja sitiada na Nicarágua

Estudantes escondidos no local foram baleados na cabeça; mais de 270 pessoas morreram desde o começo dos protestos contra o governo Ortega

O Estado de S.Paulo

14 Julho 2018 | 13h32

MANÁGUA - Dois estudantes morreram neste sábado, 14, em ataques das forças de segurança da Nicarágua contra uma igreja na capital do país, onde estão entrincheirados dezenas de estudantes desde a tarde da sexta-feira, informou a Igreja Católica. Eles foram baleados na cabeça, um dentro da igreja e outro atrás de uma barricada.

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"Fomos informados que temos dois mortos e vários feridos", declarou o cardeal nicaraguense Leopoldo Brenes, ao chegar aos arredores da igreja com o núncio apostólico, Stanislaw Waldemar Sommertag, para mediar a libertação dos estudantes.

O cerco à igreja da Divina Misericórdia começou depois de um ataque de policiais e paramilitares à Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua (UNAN), ao lado do templo, para onde estudantes fugiram.

"Sacerdotes da paróquia da Divina Misericórdia informam que continuam sendo fortemente atacados por policiais e paramilitares, um jovem foi atingido por uma bala na cabeça e acaba de falecer", afirmou, por sua vez, no Twitter a Conferência Episcopal da Nicarágua (CEN). O cardeal Brenes, presidente da CEN, "pede ao governo, que é o único responsável por estas ações, que detenha este massacre contra pessoas dentro da paróquia", acrescenta a mensagem.

Pouco depois do meio-dia de sexta-feira, hora local, policiais antidistúrbios e paramilitares invadiram a UNAN para desalojar os manifestantes que permaneciam entrincheirados desde o início dos protestos.

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"Querem nos matar!", "Estamos cercados!", gritavam os estudantes, desesperados, entre o barulho das balas, nos momentos de maior tensão, segundo a transmissão ao vivo de três jornalistas que se encontram também presos na igreja.

Um deles reportou que as autoridades cortaram a luz na região, o que aumenta o temor de uma invasão à igreja. O núncio apostólico Stanislaw Waldemar Sommertag, o cardeal Brenes e outros bispos nicaraguenses realizam gestões para conseguir a libertação dos estudantes.

Pouco antes da meia-noite local, um padre saiu da igreja com uma bandeira do Vaticano na mão para evacuar os feridos graves e o jornalista do Washington Post, Joshua Partlow, que puderam sair depois de uma negociação.

Uma caravana de veículos percorreu durante a madrugada as ruas próximas à igreja e depois um grupo de pessoas iniciou uma vigília, a 1,5 km da área de conflito, em solidariedade aos estudantes.

Os estudantes são a ponta de lança de um movimento opositor que protesta desde 18 de abril contra o presidente Daniel Ortega, a quem acusam de instaurar uma ditadura, junto com a mulher, Rosario Murillo, marcada pela corrupção e o nepotismo. Mais de 270 mortos e 2 mil feridos é o balanço deixado até agora por estes messes de protestos e confrontos.

Os confrontos entre partidários e opositores ao governo já haviam deixado dois mortos e dezenas de feridos na sexta-feira, quando o país foi paralisado por uma greve geral decretada para exigir a saída de Ortega. As duas mortes - de um policial e um civil - ocorreram no bairro de Monimbó, no sul da cidade de Masaya.

Esta segunda greve geral de 24 horas foi convocada pela Aliança Cívica para a Democracia e a Justiça, coalizão da oposição que inclui setores da sociedade civil. Um primeiro movimento social idêntico bloqueou o país em 14 de junho.

Segundo a oposição, a greve teve 90% de adesão, mas a mídia estatal indica normalidade em algumas zonas de comércio. A greve geral faz parte de uma série de ações de três dias lançada pelo campo anti-Ortega para reforçar a pressão sobre o governo.

Em meio à paralisação, apoiadores de Ortega partiram de Manágua a bordo de centenas de veículos e motocicletas, balançando bandeiras rubro-negras da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN, esquerda), em direção a Masaya, 30 km ao sul.

Governo.

Diante da delegacia de Masaya, Ortega discursou para "convidar todos os que têm diferentes pensamentos políticos e ideológicos a tomar o caminho da paz, o único capaz de nos dar tranquilidade".

Segundo Ortega, "há um grupo de nicaraguenses que não quer a paz e a reconciliação, que leva o veneno do ódio, mas o governo está avançando para recuperar a paz".

O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, condenou a situação e pediu às autoridades que permitam o acesso de especialistas da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

"É urgente que parem imediatamente os ataques que neste momento acontecem em Monimbó, Masaya, e contra estudantes da UNAN e na Igreja da Divina Misericórdia", escreveu no Twitter o gabinete do Alto Comissariado nas Nações Unidas.

Em uma reunião em Washington, sete países da OEA apresentaram um projeto de resolução que exorta Ortega a fortalecer as instituições democráticas e a apoiar as eleições antecipadas propostas pela oposição.

Argentina, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Peru e Estados Unidos revelaram a iniciativa durante sessão do Conselho Permanente da OEA, que reúne os 34 países membros ativos do organismo. O texto, que deverá ser analisado nos próximos dias, precisa de 18 votos para ser aprovado.

A Igreja Católica, mediadora do diálogo, propôs antecipar as eleições de 2021 para 2019, o que foi rejeitado por Ortega.

Os adversários de Ortega pedem justiça, eleições antecipadas, ou a saída do presidente, acusado de repressão durante os protestos e de ter instaurado, com sua mulher, uma "ditadura" marcada pela corrupção e pelo nepotismo.

O país mais pobre da América Central registra manifestações de amplitude histórica contra Daniel Ortega, ex-guerrilheiro de 72 anos. Ortega está no poder desde 2007, depois de uma passagem de 1979 a 1990. / AFP

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