Dois pastores, duas revoluções

Há um ano, Xi Jinping e o papa Francisco assumiam seus postos com desafios parecidos

Stephan Richter*, globalist.com/O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2014 | 02h02

Deixando de lado Vladimir Putin e Barack Obama, a pauta global é dominada por dois homens, cada um à sua maneira. Eles são Xi Jinping, novo presidente da China, e Jorge Mario Bergoglio. Em março de 2013, exatamente um dia antes de Xi assumir, o jesuíta argentino tornou-se o papa Francisco. Os dois assumiram o controle de rebanhos imensos - cada qual consistindo em mais de 1 bilhão de pessoas.

No entanto, este é apenas o início de uma série impressionante de paralelos. O Partido Comunista da China e a Igreja Católica compartilham mais do que certas características organizacionais, incluindo estruturas de poder com grande predomínio masculino. Além disso, ambos oferecem ideologias ou sistemas de crença com pretensão absolutista. Trata-se de uma proposição difícil numa era com um número cada vez menor de pessoas dispostas a aderir a visões de mundo tão rígidas.

Os novos líderes da China e do Vaticano prometem dedicar seus mandatos à redução da pompa e dos desvios éticos - ou mesmo os atos criminosos - em suas hierarquias. Querem também combater a pobreza entre a população como um todo.

Passados 12 meses desde o início de suas respectivas eras de liderança, este é um bom momento para indagar como estão se saindo os dois "pastores". Serão eles capazes de nos trazer o "novo espírito" que há tanto tempo se faz necessário em ambos os casos?

O papa Francisco, certamente, teve sucesso na criação de rupturas reais com práticas anteriores do Vaticano. Quase todos os seus pronunciamentos e aparições públicas sublinham a intenção de impedir a hierarquia da Igreja de "prosperar" em todas as falsidades - sua natureza autocentrada, seu distanciamento em relação ao povo e quase interminável série de transgressões.

Tais atos inglórios, praticados de maneira preocupantemente generalizada e, muitas vezes, levados às manchetes dos jornais (apesar - e em razão - dos numerosos e antigos esforços para manter tudo sob o tapete), incluíram transgressões sexuais e financeiras. O papa prometeu acabar com tudo isso.

Embora ninguém questione sua sinceridade nem suas intenções, há dúvidas reais quanto à capacidade dele - e de qualquer outro ser humano - de se impor à poderosa hierarquia do Vaticano.

Bastidores. Na Igreja, as tradições são tais que nos levam a esperar muita resistência por parte de todos os envolvidos em transgressões, especialmente a máfia italiana dentro da cúria, ou a preferência pela manutenção do status quo. Afinal, o sistema atualmente em vigor funciona bem para eles. Como ocorreu com muitos homens antes deles, estes também pouco se preocupam com o destino de sua instituição, nem com o próprio além-vida.

É incrível observar os paralelos entre as mudanças quando se enxerga o mundo a partir da estrutura de poder do Partido Comunista da China. Ele também busca preservar a situação atual e baseia seus poderes práticos num vasto sistema interno de ensino e disciplina.

Assim como os padres católicos, os funcionários do PC tiveram problemas com transgressões sexuais, embora do tipo mais tradicional, evidentemente. No entanto, suas transgressões financeiras são muito maiores do que as cometidas pelo clero católico. Isso decorre, principalmente, da oportunidade de cometer delitos maiores.

Assim, o mundo tem motivos de sobra para observar atentamente os desenvolvimentos paralelos no eixo Partido-Vaticano. Será fascinante acompanhar e ver qual deles conseguirá reverter seu curso - se é que algum realmente o fará.

É claro que muitos dos antigos fiéis se afastaram para sempre dos ensinamentos de suas "igrejas". Elas não se importam mais com a missão original (ou perderam a esperança de reverter o curso a tempo).

Sinais de boa gestão interna? Há indícios de que, em parte graças à revelação da extrema riqueza das famílias dos líderes chineses feita no New York Times, todos os membros do Politburo do Partido Comunista detalhariam cada um de seus bens e ativos financeiros. Isso foi visto como um esforço coordenado para evitar a perda do apoio por parte da população como um todo.

Entre os chineses, é grande a frustração com os líderes políticos de todos os níveis do governo. Seja de maneira direta ou por meio de suas famílias, acredita-se que eles desviem recursos públicos não apenas para seus cofres, mas também para paraísos fiscais no exterior, fora do alcance das autoridades chinesas.

Caixa de Pandora ou contenção? Alguns analistas dizem agora que o gênio saiu da lâmpada e será difícil contê-lo. Ainda assim, o presidente chinês, Xi Jinping, precisa de um símbolo bastante visível de um imenso esforço de autodisciplina - tanto para criar legitimidade perante o povo quanto para reforçar a própria autoridade.

No entanto, a promoção de um maior grau de abertura é uma manobra arriscada - não apenas por atrair a ira de muitos membros do partido. A situação pode facilmente se converter numa Caixa de Pandora.

Afinal, se o PC não quiser perder a legitimidade, esses esforços de limpeza interna terão de alcançar toda a hierarquia, indo muito além de Pequim e chegando ao nível provincial e municipal. Essencialmente, o partido se vê diante de uma escolha entre enfrentar um problema grande agora ou ver-se diante de um problema ainda maior no futuro.

O papa, por sua vez, está apresentando novas medidas inimagináveis. Seu recente pedido para que as conferências nacionais de bispos de todo o mundo realizem pesquisas de opinião entre os católicos para saber o que eles pensam de alguns dos ensinamentos da Igreja é um passo espetacular.

Isso traz o potencial de transformar a Igreja Católica, organizada puramente de cima para baixo, numa congregação mais participativa.

Certamente, sua decisão de perguntar aos fiéis sua opinião antes da grande conferência de bispos marcada para este ano é um gesto sem precedentes, com o objetivo de intensificar o foco da Igreja no seu "público consumidor".

A seu modo, os líderes chineses acabam fazendo o mesmo. Todo o monitoramento da internet, voltado principalmente para os fóruns de debate e microblogs, também atende a um propósito construtivo (embora não exclusivamente). O objetivo é proporcionar aos líderes políticos um retorno direto da população quanto ao desempenho dos gestores do Partido Comunista da China em todos os níveis da sociedade e nas diferentes regiões de um vasto país.

O mundo acompanha com grande interesse as missões do presidente Xi Jinping e do papa Francisco em sua busca por reverter o curso de seus rebanhos.

*Stephan Richter é editor do site globalist.com e presidente do Globalist Research Center, de Washington.

TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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