AP Photo/Alessandra Tarantino
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Dois populistas contrários à imigração disputam direito de governar Itália

Após nenhum partido obter maioria na eleição italiana de domingo, Luigi di Maio, do Movimento 5 Estrelas, e Matteo Salvini, da Liga, reivindicam vitória e pressionam presidente Sergio Mattarella pela prerrogativa de negociar coalizão

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

05 Março 2018 | 20h34

Dois partidos populistas reivindicaram na segunda-feira, dia5, o direito de nomear o futuro primeiro-ministro da Itália. A indefinição ocorre porque nem Luigi di Maio, do Movimento 5 Estrelas (M5S), nem Matteo Salvini, da Liga, obtiveram maioria no Parlamento e terão de buscar alianças para governar. Os dois partidos somaram 50,6% dos votos, mas não têm a intenção de dividir o poder.

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 A Itália enfrentará agora semanas de negociações. De ambos os possíveis premiês espera-se um torniquete na imigração – com aumento do número de deportações. Com relação à Europa, M5S e Liga já anunciaram que não convocarão plebiscito sobre a saída da Itália da UE ou da zona do euro.

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Como previsto pelas pesquisas, há duas semanas, o vencedor das eleições foi o M5S, movimento populista criado para desafiar o sistema pelo comediante Beppe Grillo. Agora comandada por Di Maio, de 31 anos, a legenda moderou seu discurso e abandonou a ideia de ruptura com a UE – embora tenha mantido a rejeição aos imigrantes. A nova retórica e o afastamento de Grillo deram certo e o partido obteve 32% dos votos.

Em segundo, mas tido como grande derrotado, ficou o ex-premiê e líder do Partido Democrático (PD), Matteo Renzi, com 18,9% dos votos. A legenda de centro-esquerda perdeu 6,5% de apoio e deixará o governo após cinco anos. O resultado levou Renzi a anunciar nesta segunda, 5, sua demissão do comando do PD. “Nosso lugar é na oposição”, afirmou. “Não nos tornaremos a bengala de um governo antissistema.”

Quem também saiu vitoriosa das urnas foi a Liga – antiga Liga Norte, que defendia a separação do norte da Itália, o fim da UE e do euro. Com 17,69% dos votos, a legenda liderada por Matteo Salvini foi a que mais cresceu: 13,59%, superando a Força Itália (FI, de centro-direita), comandada pelo três vezes ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que obteve 13,94% dos votos. 

O resultado fez com que Salvini superasse Berlusconi no comando da coalizão de direita e reivindicasse o direito de formar o governo, após somar 37% dos votos – contando ainda com os 4,35% do partido Irmãos da Itália (FdI), de tendência nacionalista. Na segunda, 5, no espaço de duas horas, Di Maio e Salvini reivindicaram o direito de formar o novo gabinete italiano. “Começa a Terceira República, a república dos cidadãos”, afirmou Di Maio no Twitter. 

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O imbróglio político italiano começa com o M5S, que teria de formar uma aliança para poder governar – exatamente o que o partido sempre rejeitou em sua plataforma eleitoral. Além disso, os partidos tradicionais, em especial PD e Força Itália (FI), rejeitam se aliar à legenda, que no Parlamento Europeu formava um bloco com o Partido da Independência do Reino Unido (Ukip), que lutou em favor do Brexit. 

O único partido que já considerou fechar uma coalizão com o movimento foi a própria Liga, agora concorrente na disputa pelo governo. Nesta segunda-feira, 5, Salvini afirmou que sua aliança tem “o direito e o dever de governar”, deixando claro que também ambiciona ser premiê. 

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A escolha cabe ao presidente do país, Sergio Mattarella, que tem a prerrogativa constitucional de definir a quem atribui primeiro a missão de negociar a formação de um governo. Pela tradição política parlamentarista, Di Maio seria o escolhido. No entanto, até a madrugada desta terça-feira, 6, em Roma, não havia sinal de definição.

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