Dois russos com vontades parecidas

O primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, que foi presidente do país entre 2000 e 2008, fez seu discurso anual ontem no Parlamento. O que ele disse? Que a Rússia é formidável. Que a crise acabou. Para se tornar uma das cinco maiores economias do mundo, ela precisa de estabilidade. Ela precisa de "uma década de desenvolvimento constante, sem choques, sem experiências imprudentes liberalismo com base no liberalismo.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2011 | 00h00

O que isso significa? Que, para garantir essa estabilidade, existe uma forma simples: basta que Putin seja eleito presidente da Rússia em março de 2012. Putin, portanto, deu um passo adiante: ele se apresentará como candidato. No entanto, há um "porém". Outro político russo já deixou claro sua vontade de concorrer à presidência do país. Esse homem é o atual presidente da Rússia, Dmitri Medvedev. De repente, tudo fica confuso. Na verdade, esse tal de Medvedev é uma criatura forjada e inventada por Putin.

O atual presidente da Rússia foi retirado da obscuridade há três anos por Putin, que, depois de ter cumprido dois mandatos como presidente, não poderia concorrer uma terceira vez. Então, ele tirou de sua cartola essa figura política barroca e o desconhecido Medvedev acabou sendo eleito.

Assim que assumiu, o novo presidente nomeou o próprio Putin como seu primeiro-ministro. A medida tinha como objetivo permitir que Putin se candidatasse ao terceiro mandato em 2012.

Cálculo sutil, perverso, incontrolável. Sim. No entanto, nos últimos dias, a bela engrenagem apresentou falhas mecânicas, porque Medvedev, a criatura que saiu do cérebro de Putin, quer "voar com suas próprias asas". Ele quer se candidatar à presidência em 2012.

A rebelião de Medvedev surpreendeu muita gente. O personagem é sem graça. Com seu ar de "primeiro aluno da turma", seu "enorme bom senso", ele tem um carisma igual a zero. Medvedev parece incapaz de desafiar Putin, ex-chefão da KGB, caçador de tigres, assassino de chechenos. Na verdade, durante muito tempo, Medvedev não foi mais do que um "reflexo" de seu próprio subordinado, Putin.

Algumas semanas atrás, porém, o tal "reflexo" começou a apresentar cores próprias. E publicamente. A ruptura ocorreu no dia 21 de março. A razão foi a Líbia. Putin criticou a ONU, que autorizou os ataques a Muamar Kadafi. O premiê disse que a decisão o fizera lembrar das "Cruzadas medievais contra a Palestina árabe". Na ocasião, pela primeira vez, Medvedev contradisse o "mestre". "É intolerável e inaceitável comparar as medidas tomadas pela ONU na Líbia com as Cruzadas", afirmou o presidente. Essa é a "revolta dos robôs".

O que houve? Um parafuso estava mal colocado? Uma válvula quebrou? De repente, descobrimos que os dois chefes da Rússia não são os mesmos. Há Putin, figura arcaica, da guerra, poderosos anti-Ocidente. Em segundo plano vem Medvedev, educado, liberal, permeável às idiossincrasias ocidentais.

Os próximos meses serão interessantes. A menos que a magia de Putin não assim tão diabólica. Ou que, sob o aparente desacordo entre os dois esteja um simples problema de divisão de papéis, de modo a oferecer, segundo as circunstâncias, uma face amiga do Ocidente (Medvedev) e uma segunda cara (Putin), só para mostrar aos velhos russos que o país continua a ser o mesmo dos czares, ainda que um pouco modernizado.

É CORRESPONDENTE EM PARIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.