EFE/Rolando Pujol
EFE/Rolando Pujol

Dólar é estratégico em abertura da economia de Cuba e reatamento com EUA

A proibição do uso da moeda americana e as consequentes dificuldades para realizar transações internacionais que isso trazia era uma das principais queixas do governo cubano sobre os EUA

O Estado de S.Paulo

19 de março de 2016 | 07h00

WASHINGTON - A decisão dos Estados Unidos de permitir aos cubanos e às instituições financeiras usar o dólar em algumas transações, o que estava proibido desde a imposição do embargo em 1962, é um importante marco para a internacionalização da economia de Cuba e estimula Havana a aprofundar suas reformas internas.

A proibição do uso do dólar e as consequentes dificuldades para realizar transações internacionais que isso trazia, já que a moeda americana é a mais usada no comércio mundial, era uma das principais queixas do governo cubano sobre os EUA.


De fato, em sua visita à Washington em fevereiro, o ministro de Comércio de Cuba, Rodrigo Malmierca, ressaltou que esta restrição "não complica o comércio de Cuba com os Estados Unidos, mas sim o comércio de Cuba com o restante do mundo".

A medida não só impedia o uso do dólar por Cuba, mas também representava uma ameaça para as instituições financeiras internacionais, que podiam ser multadas por realizar transações com a ilha.

A partir de agora, o sistema financeiro americano está autorizado a permitir aos cubanos realizar transferências desde contas fora do país que tenham como destino final bancos fora dos EUA (transações "U-turn").

O fim destas restrições foi anunciado apenas poucos dias antes da visita do presidente dos EUA, Barack Obama, a Cuba, a primeira de um presidente americano no cargo em oito décadas.

Ela faz parte do processo de normalização das relações entre Estados Unidos e Cuba, anunciado por Obama e pelo presidente cubano, Raúl Castro, no final de 2014.

"As próprias restrições que impusemos a Cuba desestimulavam os cubanos a realizar mudanças, pois eles eram incapazes de ter acesso a essas transações internacionais e de processar dólares na ilha", explicou o assessor-adjunto de Segurança Nacional, Ben Rhodes, em uma conferência telefônica.

"Parte do que estamos fazendo é criar incentivos adicionais para que Cuba continue avançando na evolução de seu modelo econômico", acrescentou Rhodes.

A comunidade empresarial americana deu as boas-vindas a esta suspensão, depois de várias queixas por estar ficando de fora do mercado cubano em razão das proibições enquanto outros países, como Espanha e Brasil, tomavam à frente nos negócios com a ilha.

Carlos Gutiérrez, ex-secretário de Comércio dos EUA e atual presidente do Conselho Empresarial EUA-Cuba (USCBC), ressaltou que a decisão "facilitará os negócios de empresas americanas em Cuba e fomentará o incipiente setor privado cubano".

Em outra esfera da abertura, nas últimas semanas Washington deu sinal verde ao restabelecimento dos voos comerciais diretos entre os dois países e às viagens individuais de americanos à Cuba com fins educativos, que até agora só podiam ser realizadas em grupo e patrocinada por organizações autorizadas.

As reações não demoraram. Até as agências de qualificação de crédito, que consideravam até há pouco Cuba um caso à parte na economia global, começaram a vislumbrar as possibilidades desta abertura.

"Estas recentes medidas, a agilização das viagens e o relaxamento comercial, reforçam as perspectivas de qualificação, e terão um efeito significativamente positivo sobre a economia de Cuba", ressaltou Jaime Reusche, analista da Moody's, em um comunicado aos seus clientes.

Reusche acrescentou que, "em termos de balanço de pagamentos, o aumento nas chegadas de visitantes dos EUA continuará a ajudar a compensar a queda nos fluxos financeiros desde a Venezuela nos próximos seis meses, e potencialmente cobrir sua perda total em 18 meses".

Nos últimos anos, Cuba dependeu em grande medida do apoio da Venezuela, especialmente no que se refere ao fornecimento de petróleo subsidiado.

Com estas novidades, o governo americano pressiona o cubano a avançar no processo de reformas internas.

Para Alana Tummino, diretora de Políticas Públicas e do Grupo de Trabalho sobre Cuba da Americas Society/Council of the Americas, a aproximação vista nos últimos 14 meses, apesar dos obstáculos, "é impressionante".

À Agência EFE, Tummino destacou que os EUA agora conseguiram jogar a bola para o campo cubano.

Ela apontou especificamente o "grande desafio" que ainda está no horizonte: a unificação do duplo sistema cambial da ilha, que todos os analistas concordam ser a origem das enormes distorções econômicas de Cuba.

Mas a questão fundamental, no entanto, continua a ser o embargo comercial, em vigor desde 1962, que só pode ser revogado pelo Congresso americano, atualmente de maioria republicana, taxativamente contra suprimi-lo. E é o embargo a principal desculpa de Cuba para continuar a caminhar a passos de formiga para a abertura. / EFE

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