EFE/Nathalie Sayago
EFE/Nathalie Sayago

Dólar paralelo fica descontrolado em uma Venezuela nervosa com a Constituinte

Bolívar sofre novas desvalorizações em meio ao temor do que poderá ocorrer quando o todo-poderoso organismo assumir

O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2017 | 05h00

CARACAS - "Toda vez que o dólar negro aumenta, você fica mais pobre", diz, resignado, Juan Zabala, diante da valorização frenética da moeda americana no mercado paralelo da Venezuela, influenciada pelo clima de nervosismo com a mudança que a toda-poderosa Assembleia Constituinte vai introduzir.

Executivo de uma empresa de resseguros na Venezuela, Zabala ganha 800.000 bolívares mensais, que nesta quinta-feira valiam US$ 45 no paralelo. Há um ano, quando entrou na empresa, seu salário correspondia a US$ 200 no câmbio negro. "Quando o dólar sobe, todos os preços aumentam e o salário diminui", diz este advogado de 38 anos.

A moeda americana fechou o dia cotada a 17.980 bolívares, contra 999 bolívares de um ano atrás, segundo o site DolarToday, a principal referência do mercado paralelo. Só nesta quinta-feira, a desvalorização foi de quase 12%.

Por trás disso, está a incerteza provocada pela Constituinte do presidente Nicolás Maduro, prevista para ser instalada na sexta-feira. "O povo está protegendo o pouco que tem", diz Asdrúbal Oliveros, diretor da consultoria Ecoanalítica.

Oliveros refere-se ao nervosismo de empresas e pessoas físicas que se refugiam no dólar, pressionando a alta, diante de possíveis mudanças constitucionais que, segundo a oposição, instaurariam uma "ditadura comunista".

"A gente trabalha só para poder comer", afirma Zabala, que pode se considerar um privilegiado diante dos que recebem o salário mínimo de 250.531 bolívares (US$13,9). Um quilo de arroz custa 17.000 bolívares.

"Dólar terrorista"

A Venezuela vive uma grave crise econômica, que se aprofundou a partir de 2014 com a queda dos preços do petróleo, fonte de 96% das divisas neste país historicamente dependente das importações.

Por causa disso, o governo - que monopoliza os dólares mediante um ferrenho controle de câmbio, vigente desde 2003 - reduziu as remessas ao setor privado, tornando crônica a escassez de alimentos, remédios e todo tipo de bens básicos.

Muitos empresários precisam importar matérias-primas e produtos finalizados com dólares do mercado negro, pressionando a inflação que, segundo o FMI, chegará a 720% este ano.

Para derrotar o "dólar criminoso", Maduro lançou em junho um sistema de atribuição de dólares mediante leilões, onde a moeda é cotada a 2.870 bolívares, mas a oferta é insuficiente. Também existe outra cotação oficial de 10 bolívares por dólar, reservada à importação de alimentos e medicamentos.

O presidente prometeu nesta quinta-feira a importação de alimentos e medicamentos. Também prometeu prisão "aos especuladores" que fixam os preços com base na taxa do "dólar criminoso terrorista de Miami".  "Não permitiremos isto, mão dura, mão de ferro", afirmou.

Mas a realidade é que "as coisas aumentam mais rápido que o salário", comenta Zabala, que destina a décima parte de seu salário a um tratamento para a diabetes, quando consegue.

Maduro, que vincula o "dólar negro" [paralelo] a uma suposta guerra econômica para derrubá-lo, sustenta que a nova Constituição consagrará normas para superar a dependência ao petróleo e incentivar o aparelho produtivo, que funciona com 30% de sua capacidade.

Também otimizará aspectos para o controle de preços, ao qual os especialistas atribuem várias das distorções econômicas.

"Não há barreira"

Maduro enfrenta há quatro meses protestos pedindo a sua saída, que já deixaram 125 mortos, e aludiu como motivo para a Constituinte que, segundo seus adversários, instalará uma "ditadura comunista".

Henkel García, diretor da consultoria Econométrica, crê que a alta foi provocada por atores que recorrem à moeda americana para "resguardar seu patrimônio" e por enquanto "não há barreira para o dólar negro".

Mas avalia que a taxa de câmbio atual "não tem lógica" e pode ocorrer, como aconteceu em ocasiões anteriores, que a taxa "se detenha por um tempo e os preços e salários se inflem", gerando-se uma correção.

A Constituinte também causaou um efeito colateral no mercado paralelo, pois com vistas à sua eleição no domingo passado, o governo elevou os gastos em bolívares.

"Quando se injeta bolívares, isso se traduz em que as empresas, os particulares, buscam dólares, que são escassos", observou Oliveros, que estima em US$ 11 bilhões o déficit de divisas para 2017.

O panorama é ainda mais obscuro com vistas aos próximos vencimentos da dívida (a petrolífera estatal PDVSA deverá pagar US$ 3,433 bilhões em outubro) e a ameaça de os Estados Unidos sancionarem a Venezuela por causa da Constituinte, sobre a qual há suspeitas de fraude.

Enquanto isso, Zabala espera que seu chefe aprove o reajuste salarial que pediu na quinta-feira - o quarto desde que foi contratado. / AFP

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