Dólar paralelo vale 16 vezes mais que o oficial na Venezuela

Na quarta,a unidade da moeda americana valia 101,04 bolívares; inflação é apontada como causa e consequência do desequilíbrio

Guilherme Russo, O Estado de S. Paulo

02 de outubro de 2014 | 06h00

A cotação do dólar em relação à moeda da Venezuela no mercado paralelo do país abriu a semana com uma marca considerada histórica, ultrapassando os 100 bolívares por US$ 1. Na quarta-feira, de acordo com sites de monitoramento econômico, a divisa americana no paralelo – que fechou em 101,04 bolívares – valia 16 vezes mais que no câmbio oficial, que paga 6,30 bolívares por dólar.

Economistas atribuem a alta principalmente a dois fatores: a elevação na inflação causada pelo financiamento, por parte do Banco Central da Venezuela, do déficit fiscal do governo, estimado em 18,6% do PIB do país em 2013; e ao rearranjo do gabinete ministerial de Nicolás Maduro, anunciado há um mês.

Na reforma, Rafael Ramírez deixou o cargo de ministro de Petróleo e Mineração, que acumulava com a presidência da Petróleos de Venezuela (PDVSA) e a vice-presidência da área econômica do país. A mudança de papel de Ramírez, que se tornou chanceler, demonstrou ao mercado que uma reforma econômica deve demorar, já que ele propunha um plano de ajuste da economia venezuelana.

“Estamos falando de um país que tem um déficit fiscal em seu setor público na ordem de quase 20% do PIB. Quase a metade desse déficit está sendo financiada com auxílio monetário do Banco Central da Venezuela. Isso é o mesmo que a criação artificial de dinheiro”, disse ao Estado o economista venezuelano Asdrubal Oliveros, diretor do instituto Ecoanalítica, afirmando que “a inflação é causada (principalmente) por esse desequilíbrio fiscal”.

Oliveros explicou que, com a injeção de bolívares na economia, os venezuelanos buscam se proteger da pressão inflacionária comprando dólares, para não ver seus ganhos desvalorizados – e isso aumenta a demanda pela moeda americana e, consequentemente, seu valor no câmbio paralelo.

A divulgação da cotação do dólar no câmbio negro é proibida por lei e considerada crime contra a economia popular.

“A alta da moeda encarece os produtos. Há uma grande quantidade de bens e serviços que estão indexados ao dólar paralelo: restaurantes e hotéis, tecnologia, eletrodomésticos, eletrônicos. São artigos cujos preços se movem em função do câmbio paralelo. Se o dólar sobe os preços acompanham”, disse.

De acordo com Oliveros, “trata-se de um círculo vicioso, em que o governo não toma as medidas necessárias para sair”. “Com mais inflação, as pessoas buscam mais dólares para se proteger e o dólar sobe – e isso causa mais pressão na inflação.”

O economista Robert Bottome, diretor da revista VenEconomía, afirmou que, há pouco mais de um mês, quando ainda havia a expectativa de um ajuste econômico, o valor do dólar no paralelo ficou “estável”, oscilando entre 70 e 75 bolívares. “Acreditava-se que o governo ia tomar medidas na direção da unificação do câmbio e da liberação do preço (da moeda estrangeira). Mas o governo deixou claro que essas mudanças não ocorrerão tão cedo”, disse Bottome.

Além do câmbio oficial, a 6,30 bolívares por US$ 1, o governo venezuelano negocia dólares por meio de dois sistemas complementares, que leiloam a moeda americana para particulares e negócios específicos por valores que oscilam ao redor de 11 bolívares e 50 bolívares.

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