Cristian Hernandez / AFP
Cristian Hernandez / AFP

Dolarização de facto da economia da Venezuela cresce com apagão

Com transações eletrônicas indisponíveis por falta de sinal telefônico e com caixas eletrônicos inoperantes, operações com moeda americana - tendência considerada irreversível por especialistas - tornou-se padrão até para negócios corriqueiros

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2019 | 16h11

CARACAS - Notas de bolívares misturadas com dólares em um mercado de Caracas; longas filas para comprar gelo, em dólares, na quente Maracaibo. A dolarização de facto da Venezuela se aprofundou com o gigantesco apagão que paralisou o país desde a semana passada.

As transações eletrônicas, indispensáveis para comprar pão em razão da escassez de notas da moeda local, impossível de sacar em caixas eletrônicos desde o início do problema energético, são substituídas por operações com a moeda americana até em áreas populares como Cátia, no oeste da capital venezuelana.

"Não havia luz e, quando chegada, tínhamos problema com a conexão dos pontos de venda (que usam sinal de telefone) e com os bancos. As pessoas vem com notas de dólar e, então, fazemos negócio", relatou Martín Xabier, dono de uma padaria no coração deste bairro de intensa atividade comercial.

"Todo mundo por aqui fez (este tipo de venda)", completou Martín, enquanto pouco mais de uma dezenas de pessoas faziam fila para comprar pão enquanto as conexões telefônicas e com os sistemas bancários eram recuperados.

Do outro lado de Caracas, em Altamira - bairro de classe média alta -, uma mercearia mantinha seus portões fechados, e o lojista anunciava em voz alta para uma fila de pessoas: "Aqui só aceitamos dinheiro, senhores! Bolívares ou dólares!".

Uma senhora que esperava para comprar leite para seu neto começou a chorar. "Não tenho ninguém que me mande dólares (do exterior). Como faço?", se lamentou.

Desigualdade extrema

Nos mercados de Chacao, outro bairro de classe média, o dólar também domina as transações comerciais. "Muitas pessoas pagaram com dólares (...) Tínhamos que cobrar em dinheiro vivo e as pessoas não tinham notas de bolívares e, quem tinha teria que trazer as notas em um carrinho de mão", disse María del Carmen Pereira, proprietária de uma charcutaria em que havia alguns cortes de carne salgada e produtos pré-embalados.

Desde agosto, quando o presidente socialista Nicolás Maduro decretou uma desvalorização de 96%, o bolívar teve seu valor depreciado em mais 98% - com cada US$ 1 negociado a 3.000 bolívares - em meio à uma inflação que o FMI projeta em 10.000.000% neste ano.

Pela cotação oficial, o salário mínimo, apesar da série de aumentos promovidos por Maduro, representa menos de US$ 6. Por esta razão, há vários meses o dólar tem ganhado terreno em relação ao bolívar como moeda de uso na Venezuela.

Mas milhões de pessoas não têm acesso a moeda estrangeira, o que - segundo o economista Asdrúbal Oliveros, diretor da firma Ecoanalítica - gera uma "desigualdade extrema".

Sua consultoria estimava no fim de 2018 que um terço dos venezuelanos vivia de remessas de dólar que seus parentes enviavam do exterior e projetava que neste ano esse montante pode chegar a US$ 2,4 bilhões.

Além disso, ao menos 50% da população venezuelana depende dos subsídio do Estado e o restante vive de seus trabalhos no setor privado. De acordo com estimativas da ONU, mais de 3 milhões de venezuelanos vivem no exterior, a maioria deles depois de emigrar em razão da crise política, econômica e social que afeta o país.

"A inflação é a causa fundamental da dolarização. Este episódio traumático, talvez, tenha acelerado o uso da moeda americana, com as pessoas mais dispostas a fazer e receber pagamentos em dólares - o que já era uma tendência irreversível", afirmou Henkel García, diretor da empresa Econométrica.

Refletindo essa tendência, muitas pessoas passaram a cobrar por seus serviços em dólares e algumas empresas começaram a pagar bônus em moeda estrangeira para evitar a fuga de funcionários se aproveitando da flexibilização decretada no ano passado do sistema de controle cambial criado em 2003.

"Tudo em dólar"

O fornecimento de energia começou a ser normalizado na segunda-feira em Caracas, mas ainda é intermitente nas regiões ocidentais do país, mais afetadas pelo apagão generalizado que começou na quinta-feira.

"Aqui estão cobrando tudo em dólares: queijo, bananas, pão, recarga de celular, gelo", disse Roxana Peña, de 26 anos, em Maracaibo, capital do Estado de Zulia.

Nesta cidade, onde houve saques, foram registradas longas filas para comprar blocos de gelo de cerca de 40 centímetros por US$ 5. "Muita gente não tinha como pagar", contou a professora Márgara Bermúdez.

"(Maduro) não pode garantir água, luz, remédio ou até mesmo uma moeda decente para comprar comida", criticou na terça-feira Juan Guaidó, chefe do Parlamento reconhecido como presidente interino da Venezuela por mais de 50 países.

O presidente chavista acusa Guaidó de estar envolvido em "ataques cibernéticos" e "eletromagnéticos" orquestrados pelos Estados Unidos para sabotar o sistema elétrico, mas especialistas culpam o governo pela falta de investimento em infraestrutura e pela corrupção.

À margem da disputa política, comerciantes e clientes tentam se manter da melhor maneira possível. Para Franklin García, encarregado de uma pequena mercearia em La Candelaria, em Caracas, aceitar dólares de seus poucos clientes permitiu "salvar suas mercadorias".

"Não atendemos muita gente. (Os que compravam tinham) gastavam pouco, US$ 10 ou US$ 20", disse Franklin, que perdeu queijo, frutas e legumes por falta de refrigeração. "E um refrigerador foi danificado!", acrescentou, apontando para um freezer vazio que dois técnicos tentavam consertar. / AFP

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