Pablo Pereira/Estadão
Pablo Pereira/Estadão

Dolarização informal aflige venezuelanos

Estudo recente aponta que trabalhadores já calculam custo de insumos básicos na moeda americana apesar de os salários ainda serem pagos em bolívar

Pablo Pereira, Enviado Especial a Caracas

06 de maio de 2019 | 06h00

Caracas, Venezuela, domingo, 10h. Na porta de uma padaria, uma fila de caraquenhos espera a vez na fila do pão. Alguns dos moradores já passaram por outras lojas do bairro de San Bernardino em busca do alimento, mas enfrentam um problema-chave. Os preços deste produto básico, entre outros, estão na prática atrelados ao dólar. Os salários, não.

O chamado pão galego, de farinha de trigo, no formato de baguete, custa 2.800 bolívares, cerca de R$ 1,81. Na Panadería Rosita, onde cerca de 20 consumidores aguardavam na manhã de ontem, e na Vollmer, no bairro vizinho a San Bernardino, o mesmo pão tinha preço igual. “Estou levando para toda a semana”, disse uma venezuelana que saía com uma sacola cheia. “Demora cerca de 5 a 10 minutos na fila, mas se consegue o pão”, emendou um idoso.

Na segunda loja, a fornada já estava acabando, sem hora para a próxima, mas havia outros tipos, de trigo, de milho, e mais sofisticados, como o pão andino, por 3.990 bolívares (R$ 2,62), e o “camaleón”, por 4.350 (R$ 2,86). O salário mínimo na Venezuela esteve em 18 mil bolívares, cerca de R$ 11,81 no câmbio paralelo, até 15 de abril, quando Maduro o aumentou para 40 mil (R$ 26,25).

Na Panadería San Gerardo, no mesmo bairro San Bernardino, um gerente empurrava a faca no consumidor: o “galego” estava por 3.800 (R$ 2,49). A alternativa no mesmo bairro era comprar a baguete menor por 2.000 (R$ 1,31). “Era 1.800 (R$ 1,18), mas subiu”, explicou a funcionária. A loja estava vazia. Mas ela, divertida, oferecia alternativas: “Quatro para hambúrguer por 5.000 (R$ 3,28). E o fatiado, para sanduíche, 10 mil (R$ 6,56)”.

Para o economista Juan Manuel Suárez, o país está em um acelerado processo de dolarização da economia. “O problema não é o abastecimento”, afirma. “Se você procura pão, encontra. O problema é o preço”, explica. Suárez acaba de fazer um estudo sobre a dolarização venezuelana entre as classes populares. Uma conclusão é que os comerciantes, em razão da crise política e econômica e da desvalorização da moeda, não produzem o tipo de pão regulado, tipo canilla, que deveria ser vendido por 300 bolívares (R$ 0,20) com o máximo de três pães por pessoa.

“Eles usam a farinha para outros pães, agregando tamanho e sabores, por exemplo, e então cobram mais caro”, disse. “Se você observar nas padarias, não há o canilla, que é mais popular e acessível”, afirmou. “A cadeia de abastecimento da Venezuela está muito irregular”, ressaltou.

Em pesquisa recente em Puerto La Cruz, cidade portuária da Venezuela, feita com trabalhadores locais que ganham 8 mil bolívares (R$ 5,25) por semana (32 mil - R$ 21 -, mês), o economista concluiu que a dolarização já ocorre fortemente nas classes trabalhadoras. “Eles já calculam os valores em dólar”, declarou. “O que está passando no país é um fenômeno triste, mas curioso de ser estudado”, prosseguiu.

 

Para Suárez, o passo seguinte e preocupante é que com essa dolarização crescente, não há como a população se financiar. “Hoje muitos vivem dos dólares enviados dos venezuelanos que foram embora do país e fazem remessas do exterior”, argumentou. O câmbio paralelo, que atinge o preço dos produtos com insumos importados, como a farinha de trigo, e por fim o pão, variou, nesta semana, entre 5.800 (R$ 3,81) e 6.200 (R$ 4,07) bolívares por dólar. 

“Isso criou também um outro fenômeno, que é o do ‘rebusque’”, explicou. Ou seja, as pessoas passaram a uma rotina frenética de comprar para vender e, no processo, tentar faturar um ganho extra.

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