Dom Cláudio nega abertura do Vaticano quanto ao celibato

O ex-arcebispo de São Paulo e atual chefe da Congregação para o Clero no Vaticano, Dom Cláudio Hummes, negou nesta segunda existir no Vaticano um processo de abertura para ordenar homens casados e uma relação entre a redução no número de sacerdotes e a proibição ao matrimônio. Segundo a BBC, o religioso divulgou nesta segunda um comunicado sobre o assunto, após declarações suas sobre o celibato, divulgadas no jornal O Estado de S. Paulo de sábado, terem repercutido na imprensa italiana.Em nota, Dom Cláudio afirma que "a questão do celibato não está na pauta das autoridades eclesiásticas" e que "na Igreja sempre foi claro que a obrigação do celibato para os sacerdotes não é um dogma, mas uma norma disciplinar". O religioso acrescenta que "uma abertura da regra do celibato não seria uma solução nem mesmo para o problema da crise de vocações, que é devido a outras causas, como a cultura secularizada moderna".A imprensa italiana interpretou as declarações de Dom Cláudio como um sinal de abertura da Igreja Católica, diz a BBC. Com nova posição na hierarquia da Igreja, vaticanistas analisaram a opinião do ex-arcebispo brasileiro como muito significativa. O religioso, que chegou a Roma no sábado, disse ao O Estado de S. Paulo que "a falta de vocações sacerdotais pode levar o Vaticano a discutir a ordenação de homens casados".Os pedidos de dispensa do sacerdócio são feitos atualmente ao Clero por meio da Congregação que Dom Cláudio passará a chefiar e dependem da aprovação do papa. O celibato foi introduzido na Igreja Católica em 1074 pelo papa Gregório 7º. Segundo dados da Santa Sé, atualmente existem 110 mil padres casados no mundo - 72 mil deles pediram dispensa da obrigação do celibato.Interpretação A Cúria entende que as palavras de Dom Cláudio foram mal interpretadas. "Ele não disse nada de novo, pois todos sabem que o celibato não é um dogma, que não nasceu com a igreja católica", disse um monsenhor à BBC Brasil.A posição expressada por Dom Cláudio Hummes, contudo, surpreendeu os observadores de assuntos do Vaticano. "A entrevista levantará discussões", escreveu o vaticanista Marco Tosatti, do jornal La Stampa, "porque toca em pontos sensíveis, e porque o caso do arcebispo Emanuel Milingo ainda está aberto".Frei Betto, no entanto, entende ser possível que o papa Bento XVI dê uma abertura para discutir o tema. À Ansa, o frade dominicano diz acreditar "que Hummes seja uma pessoa que pode ajudar muito no Vaticano, onde predomina o conservadorismo. Certamente não contrariará os desejos do Papa, mas ele não se limita a repetir as palavras da cúria. Hummes discute. No fim obedece, não há dúvidas. Ele não é um rebelde, não é um questionador como Dom Paulo Evaristo Arns. Apesar disso é um homem crítico, de discernimento", opina .Preso durante a ditadura brasileira e autor de 53 livros, Frei Betto diz que não se surpreende e concorda com as declarações dadas por Hummes ao jornal de que o "o celibato não é um dogma". "Não me surpreendo, mas acho um pouco ousado, da parte de Don Cláudio, manifestar-se nestes termos porque João Paulo II não admitia nem mesmo que se tocasse nesse assunto", afirma Frei Betto.

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