Dona de confecção economiza para comprar casa

Apesar da autonomia que a afegã Fátima Ehsami conquistou, família insiste para que ela arrume um marido

, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2011 | 00h00

A estilista afegã Fátima Ehsami tem 25 anos, é dona de um pequeno negócio e agora junta dinheiro para comprar a casa própria. Inshallah! (Se Deus quiser), ela diz. Pelas suas contas, já recebeu dez pedidos de casamento - recusou todos.

Há sete meses, Fátima abriu sua própria confecção em uma sala ao lado de casa, com financiamento de um programa de microcrédito do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Ela recebe em média dez encomendas de vestidos de festa por mês e já tem cinco alunas de costura.

Entre as três irmãs, só Fátima trabalha fora e ainda não se casou. "Elas acham que não consigo arrumar um marido, porque a ideia de não querer se casar ainda é inconcebível para a maioria", diz. No Afeganistão, pelo menos 70% dos casamentos são forçados para as mulheres e 57% delas casa-se com menos de 16 anos, idade mínima definida pela nova Constituição.

Comemorada pela comunidade internacional, a Carta começou a dar problemas assim que foi aprovada, em 2004. Embora determine igualdade de direitos para homens e mulheres, quando o reality show Afghan Star foi ao ar com vídeos de cantoras, a Corte Suprema argumentou que a apresentação era inconstitucional. Isso porque o Artigo 3 da Constituição determina que, a despeito de tudo o que está escrito em suas páginas, "nenhuma lei pode ser contrária às crenças e provisões do Islã".

Mais de 2 mil jovens aspirantes a artistas, de todas as partes do país, inscreveram-se na disputa. A competição durou três meses, com eliminações a cada episódio, decididas pelos telespectadores por SMS. Afinal do programa, televisionada do salão de festas do Hotel Intercontinental de Cabul, foi vista por 11 milhões de espectadores - ou um terço da população - em aparelhos de TV a bateria (vendidos a partir de R$ 150 os modelos em cores). Foi a maior audiência da recente história da televisão afegã.

Entre os finalistas, estava Setara Hussainzada, de 25 anos. Ela foi acusada de "blasfêmia", teve o portão de sua casa pichado com a palavra "prostituta" e recebeu ameaças de morte porque, durante a apresentação, o hijab escorregou da cabeça, deixando seus cabelos à mostra.

O programa foi produzido pela TV Tolo, primeira emissora privada do país, que chega a 14 cidades afegãs via satélite, transmite novelas e filmes indianos, mas as mulheres têm uma estranha tarja sobre partes do corpo tão inocentes quando os braços e o pescoço. E há CDs e DVDs à venda, mas filmes como Titanic, sucesso absoluto no Afeganistão, só pode ser comprado no mercado negro porque exibe beijos e cenas insinuantes.

Desemprego. Outra dificuldade, talvez a maior delas, que os jovens enfrentam além das tradições é a falta de trabalho. Os jovens são 70% dos mais de 3 milhões de desempregados. A miséria é fertilizante para a violência. A média de idade dos homens-bomba no Afeganistão é de 23 anos. Nos esforços para desarmar combatentes afegãos jovens - programa concluído em 2005 -, o Unicef descobriu que 70% deles tinham menos de 26 anos e encontrou 7,5 mil crianças entre os insurgentes. Tudo indica que transformar o Afeganistão no país do futuro que os jovens educados desejam será um longa e difícil luta.

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