The New York Times / Divulgação
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‘Donald Trump é uma pessoa perturbada’

De passagem por São Paulo, jornalista diz que presidente comprova diariamente que não está preparado para o cargo

Entrevista com

Thomas L. Friedman, Colunista do New York Times

Guilherme Russo, O Estado de S.Paulo

02 Março 2018 | 05h00

O jornalista Thomas L. Friedman não poupa palavras para criticar as ações e as reações do presidente dos EUA, Donald Trump. De passagem por São Paulo, onde participou de evento na Câmara Americana de Comércio, Friedman concedeu nesta quinta-feira entrevista exclusiva ao Estado, na qual enfatizou que considera o magnata “uma pessoa perturbada” que prova cotidianamente que não está preparada para liderar seu país. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Por que Trump está tomando posições contra a NRA?

É muito difícil saber qual é a verdadeira posição dele – e digo isso seriamente. Não confio em nada do que ele diz quando expressa sua opinião. A posição dele é completamente fluida, depende de com quem ele conversou por último ou do que ele está pensando naquele momento.

Pode-se dizer que ele não é uma pessoa confiável?

Não, ele não é. E já provou isso diversas vezes, com pessoas que tentam fazer acordos com ele. Trump não é confiável. 

A pressão de comerciantes de armas que restringiram suas vendas em razão do massacre na Flórida pode funcionar com Trump e ocasionar um maior controle na venda de armamento nos EUA?

É difícil saber, ele é imprevisível demais. Estamos lidando com alguém que não demonstrou nenhum interesse em ser presidente dos EUA. Ele é presidente apenas de sua base. Isso pode mudar, mas, até agora, ele não demonstrou nenhuma habilidade em liderar de verdade.

O sr. acha que ele tem sentimentos verdadeiros sobre esses ataques a tiros que têm ocorrido em escolas nos EUA?

É impossível saber. Trump é uma pessoa perturbada. Então, fica difícil saber sobre o que ele tem sentimentos verdadeiros. Ele nunca demonstrou sentimentos verdadeiros por ninguém, além dele mesmo.

É possível prever alguma consequência grave para os EUA em razão da presidência de Trump?

Eu me preocupo, porque, na verdade, fomos muito sortudos no último ano. As grandes crises que ele enfrentou foram, em sua maioria, criação dele próprio. Não houve nenhum 2008, nenhum 11 de Setembro. Não temos nenhuma ideia de como ele se comportaria numa crise.

O sr. acha que o tratamento que os principais meios de comunicação dão a Trump pode dar a impressão de que a imprensa dava passe livre para Obama?

Não acho que a grande imprensa pegou leve com Obama. Obama não mentiu nem deu 2 mil declarações falsas em seu primeiro ano de governo, não atacou o próprio secretário de Justiça, não atacou o próprio secretário de Estado, não atacou a CIA nem o FBI. Esse homem (Trump) é uma pessoa perturbada, fazendo coisas perturbadoras. Obama não teve nenhum escândalo ético em seus oito anos como presidente. Trump não passa um dia sem se envolver em algum escândalo ético. Há uma razão para fazermos a cobertura de Trump como fazemos: ele é uma pessoa instável que realiza atos perturbadores. 

E a relação dele com a Fox News, por exemplo, prejudica a imagem dos EUA? 

Claro. Agora temos nossa versão do Pravda (jornal oficial soviético) ou do Diário do Povo da China. Temos uma rede de televisão devota ao líder supremo. Na Coreia do Norte, eles chamam de Diário de Pyongyang. Nos Estados Unidos, chamamos de Fox News. 

O sr. acha que Trump tem chance de se reeleger?

É cedo demais para afirmar. O que posso dizer é que podemos ser capazes de sobreviver mais três anos com ele como presidente. Mas um mandato de oito seria um desastre total.

O que o sr. pode dizer da relação de Trump com o presidente russo, Vladimir Putin?

Acho que Trump ou está comprometido com Putin ou é um gigantesco idiota. É uma coisa ou a outra, porque os chefes da CIA, do FBI e da NSA testemunharam juntos que Putin influenciou as eleições americanas, ainda está se metendo nas nossas eleições e planeja intervir novamente em 2018 – e Trump não está fazendo nada a respeito disso. Há ainda uma terceira opção: talvez Trump queira que ele intervenha em seu favor. 

A divulgação dos e-mails de Hillary Clinton o favoreceu?

Sim, isso funcionou bem para ele. E vale dizer que nunca tivemos um presidente que tenha agido dessa maneira. Então, algo muito ruim está acontecendo. Putin não é nosso amigo. Mas, ainda assim, Trump se recusa a dizer qualquer coisa ruim sobre ele e não toma nenhuma atitude. 

E isso indica o quê?

Quando ele não responde a uma ameaça estrangeira, ele já não está simplesmente violando regras. Está violando seu juramento como presidente, de proteger e defender a Constituição.

 

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