Giorgio Viera/EFE
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Donald Trump mantém retórica agressiva em redes sociais para turbinar campanha

Presidente americano mantém o tom da campanha de quatro anos atrás; republicano tuitou cerca de uma vez por hora, em média, ao longo do mês de outubro

Levy Teles, especial para O Estadão, O Estado de S.Paulo

02 de novembro de 2020 | 17h00

Acusações de corrupção contra Joe Biden, questionamento da validade do processo eleitoral, minimização dos danos causados pelo coronavírus. Essas foram algumas das mais de 100 mensagens enviadas pelo Donald Trump durante este final de semana - o último de outubro - no Twitter e mostram alguns dos principais temas discutidos pelo presidente americano em seus 847 tuítes na reta final da campanha presidencial.

Quatro anos atrás, como aspirante à presidência pela primeira vez, o republicano mostrou um tom ácido nos ataques à adversária Hillary Clinton; mensagens pessoais e até um apelido, “Crooked Hillary” (algo como “Tortuosa Hillary”) fizeram parte da disputa política naquela campanha. Em 2020, após ter sido eleito, a postura de Trump continua a mesma, mas parte do jogo mudou.

“Ele foi eleito muito pelas redes sociais”, diz Lucas Leite, professor de Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). “Hoje, não tem uma linha de atuação, parece que aquele personalismo com base no chavão parecia mais planejado. Hoje, ele parece um indivíduo no conforto da posição e acha que isso pode ser o suficiente.”

Em média, Trump fez um tuíte por hora ao longo do mês de outubro, mesmo recluso por dois dias após contrair a covid-19 no começo do mês, quando fez apenas cinco tuítes nos dias 2 e 3. No dia 5, voltou a disparar mensagens em mais quantidade.

Numa sequência de 14 tuítes neste mesmo dia, por exemplo, Trump defendeu alguns dos principais valores da campanha: lei e ordem, alta na bolsa de valores, corte de impostos, ataque contra a imprensa, proteção da Segunda Emenda, legislação contra o aborto e liberdade religiosa.

A mídia, como de costume, foi constante alvo de ataques do presidente ao longo do mês. A maior parte das mensagens ofensivas à imprensa tem ligação com a pandemia do coronavírus. “Grande aumento da Peste Chinesa (forma como Trump costuma se referir à covid-19 algumas vezes) na Europa e em outros lugares que o Fake News (forma como se refere à imprensa) costumava apresentar como exemplos de lugares que estão indo bem, a fim de fazer os EUA ficarem mal”, tuitou no dia 12 de outubro.

“Seja forte e vigilante, ele seguirá seu curso. Vacinas e curas estão chegando rápido!”, continuou. A análise de especialistas e os números dos dias seguintes mostraram o contrário, já que o número de pessoas com a doença aumentou significativamente nos EUA.

De acordo com balanço da Universidade Johns Hopkins, o país registrou 94 mil casos de contaminados no penúltimo dia de outubro, um recorde nacional.

Disseminando fake news

Não é incomum que o presidente compartilhe desinformação no Twitter. Ao longo de outubro, foi censurado algumas vezes pela rede social. A primeira censura, no dia 6, foi também por desinformação sobre o coronavírus. “A temporada de gripe está chegando! Muitas pessoas pegam todos os anos, às vezes mais de 100 mil, e apesar da vacina, morrem de gripe. Vamos fechar o nosso país? Não, aprendemos a conviver com isso, assim como estamos aprendendo a conviver com Covid, na maioria das populações muito menos letais!!!”

A afirmação de Trump não condiz com os relatórios anuais do centro para controle e prevenção de doenças dos Estados Unidos, o CDC, que estima que entre 12 e 61 mil pessoas morrem de gripe anualmente desde 2010.

Censurado por Facebook e Twitter sobre o escândalo Hunter Biden, o presidente dedicou alguns de seus tuítes nas duas últimas semanas de outubro para atacar as duas redes sociais e o Google, empresas que ele chama de Big Techs.

“É incrível. O Twitter se recusa a permitir qualquer menção à história de corrupção de Biden, que foi tão bem contada por Tucker Carlson (jornalista da Fox News) noite passada. É a maior história e a Big Tech, junto com a Lamestream Media (outra forma como se refere à imprensa), não permite que uma palavra seja dita sobre isso”, escreveu o presidente no dia 28.

Analistas veem um papel nocivo quando personalidades como o presidente dos Estados Unidos compartilham desinformação. “Cada vez que uma autoridade legitima uma desinformação, por meio de um compartilhamento ou publicação original, essa autoridade atua de modo a ‘lavar’ a origem desse conteúdo”, diz Raquel Recuero, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), especialista em redes sociais.

“As pessoas, seguras da autenticidade da desinformação, propagam e seguem o conteúdo explicitado. Toda a desinformação que analisamos que viraliza foi repassada por uma ou mais autoridades nos vários canais de mídia social”, conclui a pesquisadora.

Para Patrícia Rossini, professora e pesquisadora do Departamento de Comunicação e Mídia da Universidade de Liverpool, parte da estratégia de Trump é pautar a imprensa pelo teor das mensagens. “Os meios de comunicação tradicionais acabam contribuindo para disseminar desinformação para um público muito maior do que aquele que estaria na plataforma.”

Em 2016, um levantamento feito por Rossini detectou que a campanha de Hillary atacou mais o adversário do que Trump fez, em números absolutos. “Os ataques dela eram muito ponderados, não chamavam atenção. Todo mundo queria saber de Trump chamando ela de crooked (tortuosa) e outras coisas.”

Uma brecha para o alcance é o dilema da liberdade de expressão na internet. “Na ausência de regulamentação externa, as mídias sociais precisam decidir como lidar com a liberdade de expressão de lideranças políticas e acabam sendo inconsistentes na forma como aplicam suas próprias regras, o que é um problema”, afirma a pesquisadora.  

Lucas Leite, professor de Relações Internacionais da Faap, afirma que parte da forma que Trump tuita incita uma radicalização. “A intenção é essa: uma simplificar a realidade por 280 caracteres”, avalia.

“Ele se beneficia da polarização para adotar uma retórica beligerante contra críticos e adversários, usando apelidos ofensivos e dizendo que é tudo ‘falso’”, adiciona Rossini. Ao longo de outubro, Trump também convocou a base do seu eleitorado para ser ‘vigilante’, um processo que põe em dúvida se ele pode aceitar o resultado das eleições do dia 3, enquanto também compartilhou mensagens que colocavam em dúvida a integridade do processo eleitoral, acusando-o de “fraude” algumas vezes. 

O que mudou?

Em 2016, dois temas foram principais nos argumentos de Trump nas redes sociais ao longo da campanha: economia e política externa. Assim também foi durante o mês de outubro daquele ano. Na ocasião, 24,7% das mensagens foram sobre economia e 22,9% sobre assuntos internacionais, de acordo com o Illuminating, um banco de dados da Universidade de Syracuse que compilou publicações dos candidatos à presidência no Twitter e no Facebook.

Ao longo do mesmo mês de 2020, os temas não tiveram a mesma prioridade.  A plataforma - que neste ano compila informações relativas aos investimentos em anúncios no Facebook e Instagram - mostra que a covid foi o principal tema discutido por Trump, muito por causa da sua própria contaminação.

Antes um tema tratado com menos destaque pelo republicano, o investimento em anúncios de campanha com mensagens sobre a covid aumentaram em seis vezes no período na semana entre os dias 29 de setembro e 9 de outubro para uma posterior queda nas semanas seguintes.

Em segundo lugar vieram os assuntos sobre governança, tema que compreende mensagens que tratam sobre o funcionamento do governo (tamanho, corrupção), processo eleitoral, assuntos judiciais e de campanha.

Em seguida vem o tema segurança, que trata sobre mensagens sobre crime, drogas, problemas relacionados a álcool, legislação de armas e outros temas sobre a falha do governo em manter as pessoas salvas.

Apenas em quarto lugar vem a economia, um tema que apenas se tornou prioridade na última semana, período em que foi divulgado o aumento de 33,1% no PIB americano do terceiro trimestre. Política externa foi assunto de baixíssimo investimento em anúncios digitais ao longo de outubro e de toda a campanha republicana.

“Se ele tivesse tratado do tema economia de uma forma melhor neste ano, talvez ele tivesse um resultado um pouco mais positivo nas regiões onde teve vitória nas últimas eleições”, afirma Leite.

Tanto Biden como Trump têm uma preocupação maior: investir em anúncios de incentivo ao voto do público, que engajam o eleitorado. “Biden investe muito mais em dizer para o eleitorado o que ele vai fazer, ou porque as pessoas deveriam votar nele, enquanto o Trump foca em dizer porque as pessoas não devem votar no rival, atacando o Partido Democrata em geral e também a imprensa”, analisa Patrícia Rossini.

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