Dores dos árabes

Influência ocidental dificulta a transição para a democracia

SHLOMO, BEN AMI, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2014 | 02h00

Pegos desprevenidos pelo desmonte do Estado iraquiano - provocado pelo rápido avanço dos militantes do Estado Islâmico no Iraque e no Levante (Isil, na sigla em inglês) - americanos e europeus reverteram sua tendência à autopunição. Na verdade, grande parte da responsabilidade pelo caos no Iraque - sem falar na Síria - sem dúvida é do pernicioso legado colonial do Ocidente e das políticas equivocadas no Oriente Médio. Mas, basicamente, a agitação observada no mundo árabe reflete o difícil confronto de uma antiga civilização com os desafios da modernidade.

Certamente, a aventura do ex-presidente George W. Bush no Iraque foi desastrosamente mal planejada, como também foi a decisão do presidente Barack Obama de não deixar uma força residual adequada no Iraque depois que os EUA retiraram suas tropas. Na verdade, a partida apressada dos EUA permitiu ao Isil ganhar terreno e, ao mesmo tempo, apagar as linhas da fronteira com a Síria.

Mas a história com frequência é traçada por forças impessoais avassaladoras - como religião, identidade étnica e atitudes culturais - que não são receptivas a soluções com base na força, sem falar em intervenções de Exércitos estrangeiros. Mesmo que os EUA não tivessem invadido o Iraque, não é insensato supor que a transição da liderança de Saddam Hussein teria sido violenta, similar à Iugoslávia nos anos 90, quando a guerra civil terminou na divisão do país ao longo das fronteiras étnicas.

Embora as elites árabes não tenham conseguido controlar as forças do imperialismo ocidental, o não reconhecimento da sua responsabilidade pelos problemas que assolam as sociedades árabes modernas somam-se a uma traição a suas populações.

Hoje, a dificuldade dos árabes, na sua essência, é com uma crise envolvendo o conceito do Estado árabe. Os árabes sempre desacreditaram o conceito de nacionalismo étnico de Israel, afirmando que religião não é base legítima para a criação de um Estado - como se os países europeus não tivessem sido (como ainda são) repúblicas cristãs durante séculos e como se os países árabes em torno de Israel fossem exemplo de diversidade étnica e religiosa.

Na verdade, os países árabes estão implodindo exatamente em razão de sua incapacidade para se reconciliar com essa diversidade. Naturalmente, não é uma luta exclusiva dos países árabes. Para a Europa criar uma união pacífica, quase federalista, foram necessárias duas guerras mundiais e o redesenho das fronteiras nacionais por meio de limpeza étnica - e o continente continua sendo desafiado por movimentos nacionalistas e xenófobos. Do mesmo modo, o experimento multiétnico da Iugoslávia terminou violentamente, após o colapso de sua ditadura.

A luta do mundo árabe para criar uma ordem sociopolítica viável não será nada fácil. Síria e Iraque não devem ser os últimos países na região a enfrentar problemas em razão de fronteiras estabelecidas arbitrariamente pelas potências colonialistas.

As revoluções da Primavera Árabe não envolveram apenas novas gerações ansiosas por democracia. Hoje, elas têm a ver principalmente com a frustração de minorias negligenciadas na era pós-colonial e reprimidas por autocratas querendo impor uma unidade em sociedades multiétnicas.

Hoje, o Oriente Médio experimenta o fracasso da ideia de que os Estados árabes podem reconciliar sociedades religiosamente diversas. Esse não é um problema que uma potência estrangeira pode resolver.

O erro que os EUA cometeram no Oriente Médio foi tentar interromper o processo de maturação que grandes mudanças históricas exigem. Ao invadir o Iraque, os americanos tentaram eludir a lógica do ciclo histórico.

Se a Europa precisou de séculos de guerras religiosas e duas guerras mundiais para resolver suas disputas étnicas e nacionais, como os EUA esperam conseguir exportar a democracia e o respeito para minorias no Oriente Médio nas asas dos seus F-16? É revelador que as mais bem-sucedidas transições democráticas no mundo árabe nos últimos anos - Tunísia e Curdistão - ocorreram com a mínima interferência do Ocidente.

O futuro do Oriente Médio está nas mãos de seus povos. Como outras civilizações, os árabes terão de empreender longo processo de tentativas e erros para superar seus problemas estruturais - que deve se estender por grande parte do século 21.

Por mais perniciosas que as estratégias políticas do Ocidente tenham sido, as forças islamistas são um resultado natural em terras árabes, uma resposta autêntica aos fracassos do nacionalismo árabe secular e do Estado árabe moderno. Isso não significa que o Ocidente não deva oferecer alguma ajuda. Mas essa ajuda deve ser oferecida com humildade e sensibilidade cultural, usando diplomacia inteligente no lugar de "ataques antiterroristas". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É EX-CHANCELER DE ISRAEL E

VICE-PRESIDENTE DO TOLEDO

INTERNATIONAL CENTER FOR PEACE

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