Dormindo de touca

Degradação da situação venezuelana exige que Brasil esteja pronto para cenários de conflito além da fronteira

MARCO ANTONIO, MASTROBUONO, ESPECIAL, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2015 | 02h03

Lojas de roupas com as vitrines, prateleiras e gavetas vazias. Nem um par de meias à venda. Assim se mostrava a Calle Agustinas, uma das principais ruas de comércio do centro de Santiago, no Chile. O câmbio oficial a 14 escudos por dólar e o paralelo a 240. O povo nas filas para comprar gêneros de primeira necessidade. Atmosfera carregada. Catatonia eletrizada. Cena própria do Anjo Exterminador de Buñuel.

Esvaía-se o ano de 1972. Os afazeres no mercado comum andino obrigavam uma viagem a cada dois meses, em média, ao Chile. Então, foi possível testemunhar, passo a passo, o enredo macroeconômico que culminara em situação tão extrema. O governo de Salvador Allende promoveu vigorosa redistribuição de renda, com o propósito de reduzir a desigualdade social. Ao mesmo tempo, intensificou a intervenção estatal na economia, expropriando empresas e desestimulando o setor privado.

De um lado, o salutar aumento de consumo popular incrementou a demanda. De outro, a falta de investimento estatal, somada à letargia privada, inviabilizaram a expansão da oferta necessária ao equilíbrio. Consequentemente, houve pressão inflacionária e aumento das importações, desequilibrando a balança comercial. Seguiu-se controle de preços e crise cambial, pela perda de receita propiciada pela exportação de commodities. Desabastecimentos e locautes.

A tensão resultante não encontrou limites e produziu-se a centelha violenta que deu no que deu. O restabelecimento da democracia não curou ainda todas as feridas e não encerrou o debate sobre custos e benefícios do que ocorreu. Os argumentos não importam ao propósito dessas considerações. Apenas um fato inquestionável: o Estado chileno e sua soberania inerente resistiram a tudo e atravessaram as vicissitudes sem descontinuidade. Chilenos podem discutir e divergir, mas continuam chilenos. Podem mudar governos e políticas, podem se digladiar, mas a pátria está lá.

Tais reflexões foram estimuladas pela leitura do noticiário dos últimos anos e meses sobre a Venezuela. Uma fantasia esotérica resulta tentadora: o espírito de Allende, incorporado em Hugo Chávez, inspirou o venezuelano a impor a mesmíssima receita do socialismo chileno, com o qualificativo atualizado para "do século 21". Quando a temperatura repetiu a iminência da fervura, desencarnou levando, com ele, a alma do pranteado líder bolivariano. Até aqui, as analogias parecem se ajustar. Quanto ao prognóstico, as direções divergem radicalmente.

No Chile, os militares estavam alheios ao governo. Houve um golpe armado contra o poder civil desarmado, ante uma população entre surpresa e impotente. Depois, diante da impopularidade, do desgaste do regime e outros fatores, restituiu-se o poder aos civis. Não se arranhou a soberania do Estado, jamais fragmentada.

Esse figurino histórico parece não se ajustar ao prognóstico da Venezuela, onde os militares integram o núcleo duro do poder. O regime chavista somou às Forças Armadas o partido oficial - amálgama que não apresenta fragilidades. Complementou-se o núcleo com milícias, algumas informais, armadas com equipamento e munição russos. A crise econômica causou descontentamentos que têm posto à prova a capacidade repressora do regime. As desapropriações e compras por grupos integrados ao poder silenciaram a mídia oposicionista.

É estável o regime que implementa o "socialismo do século 21"? A resposta afirmativa depende do apoio popular. Esse já não era compacto quando se elegeu Nicolás Maduro, com o petróleo a US$ 100 por barril. Agora, o desabastecimento e as dificuldades para importar já não se disfarçam, mesmo com os aportes chineses. Perdurando o petróleo nos níveis atuais, com 40% de queda, o desastre econômico parece inevitável. Desabastecimento e penúria progressiva podem destruir qualquer sustentação popular.

A resposta sobre a estabilidade do regime parece estar na direção de uma tirania repressora que pode se aproximar dos expurgos de Josef Stalin na União Soviética, nos anos 20, ou do ocorrido na Alemanha depois da Noite dos Longos Punhais. Parece menos provável que o regime bolivariano aceite uma derrota eleitoral e assimile as mudanças liberais.

No entanto, a tirania necessária para submeter a população descontente requer uma consistência cuja permanência pode não estar garantida. Requer análise mais acurada. Na panela venezuelana há várias colheres de pau mexendo a sopa do poder - e algumas das mãos são pouco visíveis, dentro e fora do país.

Registre-se - e os órgãos de controle americanos confirmam - que nas duas últimas décadas alterou-se gradual e dramaticamente a rota de cocaína que sai da Colômbia e é consumida nos EUA. A conexão dos cartéis mexicanos com a origem modificou-se. Com o apoio da guerrilha colombiana Farc, a droga desloca-se para a Venezuela e, daí, decola em pequenas aeronaves para o Suriname e Honduras, e chega ao México. Cuba poderia apoiar alguns desses arranjos. Crescem os indícios de que o venezuelano Cartel de los Soles é integrado por oficiais de alta patente das Forças Armadas. A colher de pau cubana não é menos visível que a do narcotráfico. Mexe desde os serviços de informação e assessoria militar aos serviços de assistência sanitária e social e núcleos de doutrinação partidária. Ingênuo seria imaginar que os serviços de inteligência que os EUA mostram ativos no Oriente Médio ignorem e se afastem de uma realidade muito mais próxima. Como no Brasil, a criminalidade desorganizada pode organizar-se. É difícil que não se aproxime das milícias informais e "coletivos" de disciplina e unidade mais difíceis de controlar.

Com tantas interfaces, o regime se revela menos monolítico. A própria distribuição do butim do tráfico poderia se converter numa velada questão militar. No caso de que as agruras econômicas deflagrem uma generalizada insurreição popular, a provável tirania repressora, embora com probabilidade menor, pode perder coesão.

O poder soberano do Estado poderia, então, deixar de ser disputado por dois grupos e degradar-se em mais uma facção numa disputa violenta e multilateral, como a da Síria. Nesse caso, dificilmente a violência anárquica respeitaria fronteiras.

Do mesmo modo que se esgarçaram as fronteiras da Síria com o Líbano e com o Iraque, as da Venezuela podem ser ignoradas. O narcotráfico já não respeita as da Colômbia. Vicissitudes podem mover tropas irregulares para território brasileiro. Por que não? Esse é o pior cenário para a Venezuela. Felizmente, não o mais provável, mas não pode deixar de ser cogitado.

Nossas Forças Armadas terão preparado um plano militar para assegurar a inviolabilidade de nossas fronteiras com Venezuela, Colômbia e Guianas caso ocorra o pior cenário? Terá o Itamaraty sido orientado a conversar com os governos de Venezuela, Colômbia, Guiana e Suriname? Como os governos de França, Cuba e EUA avaliam a situação e como pensam em agir no pior cenário? Será que o pior nos surpreenderá dormindo de touca e com o incêndio já dentro de casa?

É EX-FUNCIONÁRIO DA JUNTA DO

ACORDO DE CARTAGENA E DA

CORPORAÇÃO ANDINA DE FOMENTO

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