Ko Sasaki/The New York Times
Ko Sasaki/The New York Times

Dormir em público: sinal de diligência no Japão

Traço cultural é objeto de estudo e reflete também sono deficiente

O Estado de S. Paulo

22 Dezembro 2016 | 05h00

Em muitos países, tirar uma soneca no trabalho não é visto com bons olhos e pode até resultar em demissão. No Japão, a soneca é comum e culturalmente aceita. Na verdade, com frequência é vista como um sinal sutil de diligência: você deve estar esgotado de tanto trabalhar.

O termo usado em japonês é “inemuri”, com frequência traduzido como “dormir no horário de trabalho”. Mas Brigitte Steger, professora de estudos japoneses no Downing College, em Cambridge, que escreveu um livro sobre o assunto, diz que seria mais exato falar em “dormindo, mas presente”.

A tradução representa melhor como o Japão aborda a questão do tempo, em que é possível realizar uma multiplicidade de coisas simultaneamente, com menor intensidade. Você pode ser elogiado por participar de uma entediante reunião sobre as vendas do trimestre, ao mesmo em que sonha com férias na praia.

O “inemuri” é mais comum entre pessoas mais velhas em cargos executivos, diz a doutora. Empregados mais jovens costumam permanecer acordados o dia todo e têm mais energia, e os que trabalham em linhas de montagem não podem nem mesmo tirar um cochilo.

Ambos os sexos costumam tirar sua soneca, mas as mulheres são mais sujeitas a críticas, especialmente se dormirem numa posição considerada imprópria, disse a Steger.

O “inemuri” é praticado no Japão há pelo menos mil anos e não se restringe ao local de trabalho. As pessoas fazem sua sesta em lojas de departamento, cafés, restaurantes ou mesmo em algum local cômodo no meio de cidades agitadas. O que ajuda no caso é que o Japão tem uma taxa de crimes muito baixa. “É improvável, se você estiver dormindo em um trem, que alguém tente roubá-lo”, disse Theodore Bestor, professor de antropologia social em Harvard. 

Etiqueta. Dormir durante uma reunião social pode até melhorar sua reputação. A médica lembrou-se de um jantar em grupo em um restaurante, quando o marido de uma colega convidada à festa dormiu na mesa. Os outros convidados elogiaram seu “comportamento de cavalheiro” – ou seja, o fato de ele preferir estar presente e dormir, em vez de se desculpar e não ir ao evento social.

Uma razão para a soneca em público ser muito comum no Japão é o fato de as pessoas dormirem muito pouco em casa. Um estudo feito em 2015 pelo governo concluiu que 39,5% dos adultos japoneses dormem menos de seis horas por noite.

Uma regra tácita do “inemuri” é dormir de maneira compacta, sem “violar normas de espaço”, afirmou o professor Bestor. “Se você se estica sobre a mesa da sala de conferência do escritório, toma conta de vários assentos no trem ou ocupa o banco inteiro de um parque, será censurado, considerado uma pessoa antissocial”.

A médica Brigitte enfatiza que fechar os olhos nem sempre é o mesmo que tirar uma soneca. Uma pessoa pode fechar os olhos apenas para criar um círculo privado em uma sociedade em que essa privacidade é muito escassa.

Em parte, essa é a razão pela qual, segundo a médica, o “inemuri” vem desaparecendo no Japão. Hoje, os smartphones transportam as pessoas para sua área privativa, mas com os olhos bem abertos. / NYT

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