'Dos deslocados de 2010, 88% já têm casa'

Embaixador afirma que impasse eleitoral também afeta possibilidades de investimentos estrangeiros no país

Entrevista com

José Luiz Machado e Costa, embaixador brasileiro no Haiti

Fernanda Simas - enviada especial / Porto Príncipe, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2014 | 02h02

PORTO PRÍNCIPE - A atual situação política no Haiti, com o impasse em torno das eleições legislativas, atrapalha o desenvolvimento do país e afasta investimentos estrangeiros, explica o embaixador brasileiro no país, José Luiz Machado e Costa.

“Digo sempre aos interlocutores haitianos quando eles reclamam de não haver mais empresas brasileiras aqui: quando vocês conseguirem chegar a um consenso no plano político e houver estabilidade, com o país funcionando normalmente, vai ficar mais fácil de convencê-los a vir”, afirma Machado e Costa, acrescentando que a comunidade internacional tem papel importante ao ajudar a manter a estabilidade no Haiti.

Como a situação política atual afeta o trabalho na embaixada?

A conjuntura política haitiana tem reflexos para nós porque o Brasil é um país engajado plenamente na questão, em função da presença das nossas tropas aqui. Chegamos em 2004 para uma permanência de quatro meses. Já são 10 anos e continuamos aqui porque a ONU sentiu necessidade de renovar periodicamente esse contrato até que o Haiti apresente condições de estabilidade e paz.

Nossa participação é no sentido de estimular o processo de diálogo e entendimento entre eles e trabalhar para que uma solução satisfatória seja encontrada o mais rápido possível e possa haver eleições. Havendo eleições, o país vai funcionar normalmente, porque agora está tudo em "stand-by".

Como o senhor vê a atual situação no Haiti? Houve melhora?

Com o Martelly, apesar desses altos e baixos, está melhor. O país está funcionando melhor, os escombros foram todos removidos. Dos deslocados pelo terremoto, 88% já foram instalados, têm casa. O país está fazendo um esforço para superar as dificuldades históricas, temos que reconhecer isso. Cada dia está um pouco melhor.

A saída de haitianos para o Brasil tem como ser controlada?

Já fizemos diversas reuniões com o governo haitiano, até reuniões solenes para se criar um comitê para acompanhar a situação e fazer uma campanha para elucidar o potencial migrante de quais são as reais oportunidades e quais são os riscos de se usar uma via ilegal. Mas o governo (do Haiti) não está muito interessado, tem outras prioridades.

Há interesse do empresariado brasileiro em investir?

Há dois anos, o primeiro-ministro visitou o Brasil. Estivemos com vários empresários na tentativa de atrair o interesse de investimentos brasileiros no Haiti. Até o momento não houve interesse porque o país apresenta dificuldades. A primeira é a falta de segurança jurídica, a segunda é o problema de energia. Faltam 11 horas de luz por dia aqui, na melhor parte do país. E tem a questão política. Digo a interlocutores haitianos: quando vocês chegarem a um consenso político e houver estabilidade, vai ficar mais fácil convencê-los a vir. Enquanto isso não acontecer, vocês têm de colocar ordem na casa. 

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