Doutrina multilateral usada contra Líbia é impraticável na Síria

Seria prematuro qualificar a guerra na Líbia como um grande sucesso para os interesses americanos. Mas a chegada dos rebeldes vitoriosos a Tripoli, na semana passada, deu aos assessores da Casa Branca a chance de afirmar que foi uma vitória-chave da "doutrina Barack Obama" para o Oriente Médio, bastante criticada nos últimos meses como uma liderança de bastidores.

Helene Cooper, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2011 | 00h00

Funcionários do governo dizem que, apesar de a intervenção da Otan na Líbia não poder ser aplicada uniformemente no caso de outros pontos onde há grande agitação, como a Síria, o conflito pode, sob vários aspectos importantes, tornar-se um modelo para os EUA de como usar a força onde seus interesses estão ameaçados.

"Somos contra a noção de doutrina, pois não achamos que se pode impor um modelo para países muito diferentes; porque, neste caso, você pode ter problemas e intervir onde não deveria", disse Ben Rodhes, diretor do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca. Mesmo assim, disse ele, a ação na Líbia ajudou a estabelecer dois princípios com base nos quais os EUA podem usar a força militar para promover seus interesses diplomáticos, ainda que sua segurança nacional não esteja diretamente ameaçada.

Obama expôs esses princípios em 28 de março, quando fez seu único e importante discurso sobre o conflito na Líbia. Nele, Obama afirmou que os EUA tinham a responsabilidade de acabar com o que caracterizou como um genocídio iminente em Benghazi (princípio um). Mas, ao mesmo tempo, disse ele, quando a segurança dos americanos não está diretamente ameaçada, mas uma ação se justifica - como é o caso de um genocídio -, os EUA entrariam em ação, mas com a condição de que não agiriam sozinhos (principio dois).

Portanto, na Líbia, os EUA usaram sua força - mísseis de cruzeiro, aviões, bombas, inteligência e até pessoal militar -, mas não participaram da coalizão da Otan liderada por franceses e britânicos e nações árabes. E isso só depois de o Conselho de Segurança da ONU votar uma resolução autorizando uma ação multilateral vista com desdém pelo predecessor de Obama, George W. Bush.

Autoridades dizem que a estratégia para a Líbia funcionou em grande parte porque foi percebida como um esforço internacional contra um ditador brutal e "não uma iniciativa solitária dos EUA", como disse um funcionário do alto escalão do governo. "Uma iniciativa unicamente americana" corria o risco de se tornar uma guerra entre o ditador Muamar Kadafi e EUA, disse o funcionário.

Mas qualquer especulação no sentido de que o modelo adotado para a Líbia pode ser usado na Síria, quando EUA e seus aliados europeus estão exigindo a saída do presidente Bashar Assad, pode ser um tanto apressada. No momento, pelo menos, o governo Obama e seus aliados na Líbia não chegaram ao ponto de ameaçar com o uso de força militar na Síria, e as autoridades afirmam que criar uma enorme pressão diplomática poderá no final surtir algum efeito. E, caso Assad continue reprimindo violentamente os dissidentes, uma ação mais agressiva estará fundamentada.

Damasco tem aliados que a Líbia não tinha. E a Síria, situada no coração da zona do conflito árabe-israelense, pode causar muitos estragos para Israel. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É REPÓRTER DO "NEW YORK TIMES"S

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