Doutrina radical norteia ação de Putin na Ucrânia

Analistas veem influência do 'neoeurasianismo' sobre líder russo, que lamenta fim da URSS; teoria segue princípios extremistas de direita e esquerda

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2014 | 02h02

Por trás da ofensiva da Rússia sobre a Ucrânia há mais do que interesses geopolíticos e econômicos. O presidente russo, Vladimir Putin, estaria sendo influenciado também pelo "neoeurasianismo", ideologia radical de inspiração nacionalista nascida nos anos 20 e reescrita após o desmoronamento da União Soviética.

Fiel à tradição e aos valores cristãos ortodoxos, a doutrina reúne princípios da extrema direita e da extrema esquerda na luta contra seus inimigos: os EUA, a Europa, o Ocidente, o liberalismo e a globalização.

A teoria reafirma o que qualifica de "identidade russa", nascida da fusão de eslavos e muçulmanos turcos. A Rússia seria um terceiro continente, situado entre a Europa e a Ásia. Antes de quase desaparecer no século 20, esta linha de pensamento opunha-se tanto ao Ocidente liberal, considerado decadente, quanto aos soviéticos, que baniram o cristianismo ortodoxo da Rússia, assim como seus valores tradicionalistas.

O renascimento do eurasianismo ocorreu após a queda do Muro de Berlim e da URSS, por meio do filósofo e cientista político Alexander Dugin. Filho de um agente da KGB, o intelectual se alinhou com os opositores de Boris Ieltsin, o primeiro presidente da Rússia após o fim do bloco soviético. Aliou-se também ao escritor dissidente Eduard Limonov na fundação do Partido Nacional-Bolchevique, cujo nome e bandeira não deixavam dúvidas sobre sua proximidade com o nazismo.

Em 1994, Limonov e Dugin se separaram. O primeiro fez uma guinada liberal e fundou o movimento Outra Rússia, de oposição a Putin. O segundo criou em 2002 um novo partido, o Eurásia, em atividade até hoje. Nos últimos 25 anos, Dugin ganhou influência em Moscou, onde ficou mais próximo de Putin e de Dmitri Medvedev. Por isso, o presidente russo adotou o discurso da ideologia, ressaltando a ideia de "tradição", cara à Igreja Ortodoxa russa, e recusando o multiculturalismo, o feminismo, o homossexualidade e o que chama de "valores não tradicionais" dos EUA.

"Com certeza, a ideologia do eurasianismo de Dugin influencia Putin", afirma a cientista política russa Tatiana Kastoueva-Jean, coordenadora do centro de estudo de Rússia do Instituto Francês de Relações Internacionais, de Paris. "A teoria de Dugin ressalta o papel específico e único da Rússia e corresponde à visão das autoridades russas."

Para a historiadora francesa Marlène Laruelle, pesquisadora do Centro de Estudos dos Mundos Russo, Caucasiano e Centro-Europeu, a ideologia não explica toda a política externa da Rússia, mas ajuda a entender seus desdobramentos. Um deles é o projeto de criação da União Eurasiática, com sede em Moscou, cujo tratado foi assinado em novembro de 2011 pelos os presidentes de Bielo-Rússia, Casaquistão e Armênia. O grupo incluirá Quirguistão e Tajiquistão a partir de 2015.

Ao convencer o ex-presidente ucraniano Viktor Yanukovich a renunciar à ambição de um acordo de livre-comércio com a União Europeia, em novembro - evento que detonou o Movimento EuroMaidan, na Praça da Independência, em Kiev -, Putin planejava a inclusão da Ucrânia no novo bloco, expandindo-o para o oeste e incorporando, futuramente, membros como Geórgia, Moldávia e Armênia.

Na prática, a União Eurasiática reconstituiria a maior parte do território da URSS, cujo esfacelamento é considerado por Putin como uma das maiores tragédias do século 20. "O objetivo era manter a Ucrânia sob sua influência, fazendo-a participar de seu projeto de União Eurasiática, não admitindo sua 'deriva' em direção ao Ocidente", afirma Tatiana. "Esses objetivos estão bem comprometidos hoje."

Em entrevista a um jornalista francês militante do eurasianismo, em 2009, o Dugin foi claro: para ele, não existe povo ucraniano. "Nós somos contra o Estado-nação ucraniano porque ele é pró-americano, atlantista e antieurasiano", disse. "O povo da Ucrânia do leste e da Crimeia está agora em perigo de opressão e destruição."

Para o ucraniano Constantin Sigov, filósofo da Universidade Kiev-Mohyla e militante do Movimento Euromaidan, o eurasianismo tornou-se uma ideologia perigosa para todo o mundo. "Não há nada de bom na ideologia do eurasianismo. É uma salada sem coerência interna que busca elementos do comunismo, do socialismo, do nacionalismo, do cristianismo", diz Sigov, que vê no presidente russo o líder do movimento. "Putin é um louco e precisa ser parado enquanto há tempo."

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