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Doutrina Trump

Muito mais do que bombas, as armas preferidas do presidente americano são as tarifas

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2019 | 05h00

Donald Trump, com seus modos grosseiros, parece ter desenvolvido uma diplomacia indecifrável. Mas é bom desconfiar das aparências. É possível que estejamos enganados e seus tuítes ridículos, sua cólera fingida, suas infantilidades e provocações sejam, na verdade, uma cortina de fumaça atrás da qual ele move seus peões no xadrez diplomático. 

Se procurarmos através de seus contorcionismos uma linha condutora, pode ser esta: Trump substituiu a diplomacia dos neoconservadores de George W. Bush que intervinham militarmente mesmo em países distantes com o objetivo de introduzir os princípios sacrossantos da democracia. 

Essa diplomacia foi usada por Bush duas vezes: em 2001, para tirar o Taleban do poder no Afeganistão, e em 2003, quando invadiu o Iraque com o mesmo entusiasmo e eficácia. Em um mês, os iraquianos estavam vencidos. Seguiram-se 15 anos de desordem, mas, em lugar de democracia, o país foi invadido pelos sombrios assassinos do Estado Islâmico

Trump não segue os mesmos caminhos. É verdade que ele não deixaria de intervir em países distantes, como Coreia do Norte ou Irã, mas, por enquanto, não falou em restaurar democracias fracassadas. Outra diferença: em lugar de canhões, ele prefere trabalhar com suas armas habituais: as sanções. Se necessário, é claro, não deixará de empregar as fortalezas flutuantes e os submarinos atômicos que patrulham os mares. Mas seria o último recurso. Antes disso, ele terá recorrido a outras armas de seu arsenal: bancos, taxas de juros, tarifas. 

Trump age da mesma forma com países amigos. A França, por exemplo, que o irrita porque, em vez de beber os excelentes crus da Califórnia, prefere Beaujolais e Bordeaux. Como está fora de questão enviar uma canhoneira para as vinícolas de Sancerre, Trump recorre a sua arma diplomática habitual. Dois dias atrás, ele declarou: “A França taxa demais o vinho. E nós, americanos, taxamos muito pouco o vinho francês. Não é justo. É preciso fazer alguma coisa.” De fato, dos € 13 bilhões em vinhos e destilados exportados no ano passado pela França, € 3,2 bilhões foram para os EUA.

Qual solução Trump propõe para reequilibrar o comércio? Aumentar a taxação. Mas, infelizmente para ele, a tarifa não é fixada pela França, mas pela União Europeia. É mais um golpe do bloco que Trump não pode admitir. Seu cérebro febril vai procurar um jeito de contornar o obstáculo. 

Com o México, a batalha é mais séria. Ela se trava em torno do que Trump chama de praga: o fluxo de migrantes da América Central e do México. Após meses de infrutíferos esforços para erguer, sem concluir, um muro na fronteira, Trump finalmente se volta para sua arma favorita: os direitos alfandegários. 

Para começar, ele anunciou que ia aumentar em 5% as tarifas sobre todos os produtos importados do México. Passaram-se alguns dias e os mexicanos jogaram a toalha. A partir de agora, eles se inclinam à vontade americana. Para observadores, essa é a primeira grande vitória da nova doutrina Trump. 

Logo saberemos qual será o alcance dessa diplomacia. Mas, no momento, à luz desse último episódio, temos de fazer nova leitura das turbulências diplomáticas de Trump. Mesmo o Irã não foge à regra. Trump utiliza uma linguagem belicosa e enviou inquietantes navios à região, mas em nenhum momento falou em abrir fogo. Ele prefere sufocar o inimigo a fazer correr seu sangue. Até agora, continua fiel a seu mote preferido: as tarifas antes das bombas. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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