Drama de morador de rua nos EUA expõe crueldade das redes sociais

Drama de morador de rua nos EUA expõe crueldade das redes sociais

O vídeo de Anthony Torres fazendo a barba dentro de um trem viralizou; depois de execrado na internet, a 'Associated Press' descobriu sua verdadeira história

THE WASHINGTON POST, NEW JERSEY, EUA

20 Setembro 2018 | 15h21

Anthony Torres viveu de tudo nos últimos dias. Na quinta-feira, 13, ele  tomou um trem de Nova York para Atco, em New Jersey. Durante a viagem, empunhou navalha, espuma e se barbeou ali mesmo no vagão. O problema é que, sem ele perceber, um passageiro filmou tudo no celular e postou no Twitter na mesma noite, transformando Torres, de 56 anos, em celebridade da internet, no pior sentido do termo. 

Milhares de retuítes depois, ele já tinha uma coleção de xingamentos: "animal", "sujo", "repugnante". Torres foi execrado por tabloides e sites de notícia. "Impossível ignorar", disse o NJ.com. "Coisa mais nojenta", escreveu o New York Post. Foi quando a Associated Press botou em prática o bom jornalismo e descobriu a história por trás das imagens. 

Torres é morador de rua. Perambulava entre Atlantic City e Manhattan. Em ambas, foi assaltado e roubado. "Era muito difícil", disse. "Tinha noites em que eu deitava debaixo da ponte e chorava." Quando não havia mais lugar no abrigo de Nova York, ele decidiu ir para a casa de um irmão, em New Jersey. 

Pegou dinheiro emprestado para a passagem e embarcou na Penn Station, com fome e sem tomar banho. Torres conta que, no trem, só pensavam em se apresentar de maneira digna para a família. Por isso, decidiu se barbear. "Eu me sentia sujo", disse, sem saber que estava prestes a ser condenado nas redes sociais. 

Quando viu o vídeo pela primeira vez, mostrado por sua sobrinha, ele se sentiu envergonhado. Depois, ficou com medo de ter feito alguma coisa errada. O vídeo circulava pelas TVs do país inteiro quando a Associated Press publicou sua história, na segunda-feira. Foi então que a vida de Torres percorreu o caminho inverso e ele começou a receber milhares de pedidos de desculpas. 

"Este caso deveria fazer com que os usuários das redes sociais repensem a cultura que criamos, na qual reduzimos tudo a um vídeo viral estúpido", escreveu o jornalista Sean Sullivan, no Twitter. Pete Bentivegna, que fez e espalhou o vídeo na internet, era um dos mais arrependidos.  "Eu nunca quis fazer mal a ninguém", disse. Na terça-feira, ele lecenciou as imagens e doou todos os recursos para Torres e sua família. Depois de ler a matéria da AP, o advogado Jordan Uhl, que trabalha na firma MoveOn.org, de Washington, organizou uma página no site GoFundMe que havia arrecadado mais de US$ 27 mil. 

Torres decidiu ficar na casa do irmão, em New Jersey. "Ele já teve dois derrames", disse Thomas Torres ao Washington Post. "A vida inteira dele sempre foi um inferno. Agora, vendo que tanta gente se interessa por ele, espero que o caso sirva de alerta e ele possa recomeçar." 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.