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Drama no belo mar

Líbia, vítima do caos desde a morte de Kadafi, tomou lugar da Síria na crise de refugiados

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2017 | 03h00

Em Tallin, na Estônia, os ministros do Interior e da Justiça da União Europeia se reuniram na sexta-feira. O tema de debate foi o enorme fluxo migratório que nunca diminui e aumenta no início do verão. De todos os lados, botes, ou melhor, carcaças de barcos convergem para a Itália. A Grécia foi poupada depois que a rota dos Bálcãs foi fechada, graças a Angela Merkel, que assinou com a Turquia um acordo sutil e perigoso.

Na Sicília, desembarcam multidões cadavéricas de infelizes expulsos de todos os lugares, expulsos do mundo. A Itália já não aguenta mais. Em razão de sua posição geográfica, próxima da África, o país é uma espécie de “rodovia” dos migrantes. E ela está congestionada: 85 mil pessoas desembarcaram na Itália desde o início do ano, mas 2,2 mil imigrantes – mulheres e crianças, principalmente – morreram afogadas nas ondas encantadas do mais belo mar do mundo, o mar de Aristóteles, Virgílio, de Cleópatra e Marco Antonio.

O problema é que ninguém sabe a solução, salvo alguns da extrema direita (na França ou na Áustria), que propõem afogar os imigrantes mais desamparados. Seria o caso então de cortar o mal na sua raiz? Isso é ilusório. Há dois anos, a Europa recebeu um milhão de imigrantes, sobretudo sírios. Graças a Angela Merkel, o fluxo diminuiu, ao mesmo tempo, o reservatório de fugitivos, ou seja, a Síria, esvaziou. Portanto, estávamos no bom caminho. Mas a pausa não foi longa.

Outro país ocupou o lugar: a Líbia, vítima do caos total desde que a França e a Otan cometeram a bobagem de matar o ditador Muamar Kadafi. Na Líbia, as pessoas se matam, se mutilam, se vendem, denunciam, morrem. E os traficantes de seres humanos pululam. Eles exigem somas enormes e não se preocupam nem mesmo em conduzir os clientes até a Itália. Utilizam barcos cada vez mais baratos, frágeis e sobrecarregados. E, tão longo passam do limite das águas territoriais, retornam e dão adeus aos seus clientes. 

E o que fazer? Que a Europa enfim se solidarize com a Itália. Que receba um número maior de imigrantes, que eles sejam acolhidos dignamente. No entanto, existe uma grande ameaça: a Europa não pode acolher a miséria do mundo como se proclama à direita e à esquerda. 

Falemos seriamente. A Europa é um dos continentes mais ricos do globo. Conta com 500 milhões de habitantes. As pessoas que chegam são apenas uma gota d’água se comparadas ao tamanho da população europeia.

Os “senhores” dos ministérios europeus recentemente encontraram um novo culpado: as organizações não governamentais que socorrem os infelizes. E as culpam por três coisas: de um lado, elas oferecem uma válvula de escape, pois ao salvarem pessoas incitam outras desesperadas a tentar sua sorte. Uma segunda crítica feita: os barcos salva-vidas que utilizam chegam cada vez mais perto das costas líbias. A resposta das ONGs: é porque os traficantes não conduzem seus barcos além das águas líbias. 

Em terceiro lugar, uma denúncia feita pelo ministro do Interior da França: observa-se que há um conluio entre os barcos salva-vidas e os traficantes. É possível. As duas instâncias do “mal” e do “bem” sempre mantêm “ligações perigosas”. Portanto, seria saudável cortar o elo, se for confirmado que ele existe.

Mas, sem dúvida, seria mais urgente levar a cabo uma ação internacional europeia para lançar uma caça a esses traficantes que agem e se vangloriam insolentemente na Líbia e asfixiam o pouco que existe de serviços líbios, ao mesmo tempo assassinando os imigrantes. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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