Rodrigo Arangua/AFP
Rodrigo Arangua/AFP

Drama vivido na mina San José une um país dividido

Tragédia abre chance de cooperação com La Paz, que acompanha o caso de Carlos Mamani, único boliviano entre os presos

Stephen Bodzin CHRISTIAN SCIENCE MONITOR, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2010 | 00h00

Bernarda Lorca, sentada em sua cadeira de rodas, vende cosméticos e flores de papel crepom feitas à mão pelas ruas de Santiago. No entanto, passou a noite de ontem na mina San José, fazendo flores para as dezenas de mulheres que esperam acampadas ali há 68 dias, desde que um desmoronamento prendeu seus maridos, irmãos e filhos sob a terra. O colapso da mina ajudou a unir um país geograficamente diverso, com uma aguda consciência de classe e, muitas vezes, individualista.

"As pessoas estão mais unidas", disse Bernarda no refeitório do Acampamento Esperança, onde as famílias e mais de mil jornalistas estão à espera da subida dos mineiros à superfície. "O Chile é uma nação muito dividida. Os ricos são ricos e os pobres são pobres. No entanto, aqui, pessoas que poderiam ser um pouco mais esnobes têm de caminhar na lama como todo o mundo. Aqui, ninguém anda sem sujar os sapatos."

Um grupo de dez mulheres de casaco azul passou a noite anterior distribuindo bolo de cenoura e empanadas de queijo às famílias, ao pessoal de apoio e aos repórteres, como têm feito uma vez por semana. Dias atrás, chegou Rubén Figueroa com um cartão enviado aos mineiros por sua filha, que está na terceira série.

Ele pedalou quase 200 quilômetros, desde Santiago, até conseguir uma carona em um caminhão que o levou até a mina. "Precisamos dar o nosso apoio a eles", disse Figueroa. As famílias receberam cartões e mensagens de apoio de todo o mundo. Eduardo Farkas, dono de uma mina no Chile, abriu uma conta bancária para cada mineiro e depositou US$ 10 mil para cada um, dando início a uma corrente de doações.

Ajuda internacional. A crise criou também uma nova oportunidade de cooperação internacional. Há muito tempo inimigos, Bolívia e Chile estão cooperando para dar apoio ao mineiro boliviano Carlos Mamani, de 23 anos. O presidente da Bolívia, Evo Morales, está sendo esperado para cumprimentar os sobreviventes, assim que eles forem resgatados, ao lado do presidente chileno, Sebastián Piñera.

Debates. Enquanto isso, as equipes de trabalho hastearam bandeiras do Canadá, dos EUA, da Argentina e de outros países. O embaixador palestino Mai al-Kaila, que também visitou o local, acrescentou a bandeira de seu povo à coleção.

A cooperação, porém, talvez não dure muito por causa da discussão em torno do futuro da mineração chilena. Alguns já falam na estatização das minas menores, enquanto outros pressionam para que se aumentem os investimentos privados. Há ainda quem exija que as minas menores sejam fechadas, o que poderia causar o desemprego de muitos trabalhadores.

Também tem havido queixas no sul do Chile - atingido pelo quinto maior terremoto da história, em 27 de fevereiro - de que o governo passou a dedicar todas as atenções aos mineiros e relegou a reconstrução da região devastada para o segundo plano.

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