AP Photo/Ramon Espinosa
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Cuba aplica sua cartilha para esmagar a dissidência, e dramaturgo parte para o exílio

Yunior García se tornou uma das principais vozes da oposição ao regime; dias após protestos sufocados, ele se mudou para a Espanha

Nicholas Casey, The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2021 | 10h00

MADRI — Para Yunior García, um dramaturgo cubano, a rápida jornada do ativismo em Havana para o exílio em Madri poderia ter sido tirada de uma de suas peças.

Tudo começou com pombos decapitados na porta de sua casa, colocados lá, suspeita ele, por agentes do governo comunista de Cuba com intenção de assustá-lo. Depois, uma multidão de apoiadores do regime cercou sua residência para espicaçá-lo. Ele afirmou que obteve secretamente um visto para entrar na Espanha e que foi retirado de sua casa por pessoas que o levaram para um local seguro — e depois para o aeroporto de Havana.    

E foi assim que García, um dos nomes que ascenderam nas manifestações de oposição que sacudiram Cuba este ano, partiu.

“Não sou feito de bronze ou mármore e não cavalgo nenhum cavalo branco”, disse a repórteres García, de 39 anos, durante uma entrevista coletiva que concedeu em Madri, na quinta-feira, um dia depois de chegar à capital espanhola, afirmando que temia ser preso e não queria virar mártir. “Sou uma pessoa que tem medo, com temores e preocupações.”

Foi uma perda desalentadora — chamada por alguns de traição — para os manifestantes cubanos pró-democracia, que haviam conseguido canalizar décadas de insatisfação a respeito das falhas na economia e o desespero causado pela pandemia num episódio jamais testemunhado na ilha: um movimento que tomou as ruas, organizado a partir de smartphones e redes sociais, que levou milhares de cubanos a exigir mudanças.

Mas tudo isso acabou em 15 de novembro, quando agentes de segurança do Estado suprimiram nacionalmente o protesto marcado para aquela data. E dias depois, um dos mais conhecidos líderes do movimento, García, apareceu na Espanha.

Para muitos, a trajetória de García marcou um retorno da cartilha do governo cubano de supressão à dissidência, que foi às alturas nas décadas de 1980 e 2000. Críticos do regime eram intimidados para que deixassem o país ou, em alguns casos, obrigados a sair.

“Existe este tipo de fenômeno cíclico e recorrente: desacreditar essas vozes, silenciá-las, intimidá-las”, afirmou Katrin Hansing, antropóloga da Faculdade Baruch, de Nova York, que estuda Cuba. Mas a atual geração de exilados é diferente.

Eles são jovens escritores, artistas e músicos que, por algum tempo, foram encorajados por uma abertura de Cuba que chegou a promover seus talentos ao mundo.

Menos de uma década atrás, os líderes cubanos cogitaram a necessidade de uma mudança, e até mesmo de uma leve crítica ao sistema. O governo eliminou a necessidade de vistos para viagens ao exterior, permitindo que os cubanos viajassem sem autorização oficial e que os jovens buscassem educação em outros países. Havana fez um pacto com o Washington para restabelecer relações, com provisões para expandir o fluxo de informações entre os países.

Hamlet Lavastida, um artista cubano de 38 anos, foi um dos que se beneficiaram das restrições abrandadas. Depois de viver vários anos na Polônia, ele foi para a Alemanha em 2020, para se dedicar a uma residência artística. As obras dele sempre miraram o Estado cubano: em maio, ele exibiu um trabalho que incluiu um pedaço de papel no qual outro artista cubano fez uma confissão sob interrogatório das autoridades.

Quando Lavastida voltou para Cuba, em junho, as autoridades do país o detiveram e o levaram para um centro de interrogatórios, onde ele permaneceu preso três meses sem acusação formal. Ele disse que contraiu covid-19 no local e que os agentes o interrogavam com frequência, afirmando que ele era terrorista.

“Eles perguntavam, ’Você sabe quem é Tony Blinken?’”, afirmou Lavastida, referindo-se a Antony Blinken, o secretário de Estado americano. O governo cubano acusa os dissidentes de agir em nome dos EUA, que, segundo Havana, fomenta agitação para depor seu regime.

Em setembro, o governo cubano forçou Lavastida a tomar um voo para a Polônia, onde ele tem um filho. Agora, de volta a Berlim, ele foi acusado de incitação em Cuba.

Mónica Baró, uma jornalista independente de 33 anos que deixou Cuba este ano para viver em Madri, afirmou que o padrão recente ecoa a Primavera Negra, de 2003, a onda repressiva do governo cubano que aprisionou 75 dissidentes e jornalistas.

Desta vez, porém, o governo está se valendo de táticas para afastar a atenção da mídia, afirmou Baró. Por exemplo, em vez de sentenciar críticos do regime a penas de prisão, as autoridades os detêm por certos períodos, em um esforço para “desestabilizar todos emocionalmente — você e sua família”, disse ela. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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