Alfredo Estrella/AFP
Alfredo Estrella/AFP

Drogas ganham espaço na Cúpula das Américas

Guatemala levantará a discussão sobre descriminalização, mas enfrenta forte oposição dos EUA

Julia Duailibi / ENVIADA ESPECIAL / CARTAGENA,

12 de abril de 2012 | 21h33

CARTAGENA - O encontro dos 33 chefes de Estado que participarão da Cúpula das Américas começa oficialmente no próximo sábado, em Cartagena, na Colômbia, com uma pauta paralela que se sobrepôs à agenda oficial. A discussão sobre a descriminalização do uso das drogas é debatida por diplomatas, equipes técnicas e representantes de organismos multilaterais que já estão no balneário colombiano.

É pouco provável, no entanto, que haja uma manifestação contundente sobre o tema, discutido de maneira marginal no encontro. A declaração final da sexta reunião dos presidentes dos países das Américas, que ocorre a cada três anos, será divulgada no domingo e é tradicionalmente composta por afirmações genéricas sobre pontos praticamente consensuais, como o combate à pobreza e a fixação de metas para o desenvolvimento social e econômico.

Os três principais assuntos que dominam atualmente a agenda da região - Cuba, a crise nas Malvinas e drogas - devem ocupar espaço reduzido das manifestações oficiais, mas o simples debate da descriminalização das drogas num fórum internacional já é apontado como uma vitória pelos defensores da medida, que vem sendo liderada pelo presidente da Guatemala, Otto Perez Molina, com certo entusiasmo de países como o México e Colômbia - a presidente Dilma Rousseff, que chega amanhã, não tem participado dos debates sobre o tema.

Em entrevista a uma emissora de TV colombiana, o presidente do país, Juan Manuel Santos, disse esperar que se "comece uma discussão objetiva, tranquila e sem a grande paixão política que desperte qualquer proposta sobre o tema". "Temos de avaliar, acima de tudo, se o que estamos fazendo é o máximo do que podemos fazer", declarou.

Anfitrião da cúpula, Santos foi cauteloso ao mencionar a questão. Afirmou que o debate oficial deve ser conduzido pela Organização das Nações Unidas (ONU), mas defendeu o início da discussão ao dizer que se deve encarar o problema e não agir como um "avestruz".

"Não se espera que saia uma estratégia, mas é um pontapé inicial. O presidente Santos quer discutir os diversos cenários possíveis. O inovador da proposta dele é que não há uma proposta", afirmou ao Estado o embaixador brasileiro na Colômbia, Antonino Mena Gonçalves.

Os Estados Unidos já avisaram que são contra a descriminalização. O presidente Barack Obama, que deve chegar ao encontro hoje, defende a construção de alianças mais fortes entre os países na luta contra o tráfico, mas admite estar aberto a discutir propostas que se mostrem mais eficazes no combate ao crime.

No mês passado, os presidentes da América Central se encontraram na Guatemala para discutir o tema. Perez Molina prometeu levantar a discussão durante a cúpula. Os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, César Gaviria (Colômbia) e Ernesto Zedillo (México), que criaram em 2009 a Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, publicaram um artigo na semana passada no qual também defendem a abordagem da questão durante o encontro.

"Deste encontro de chefes de Estado não se deve esperar soluções mágicas ou acordos imediatos sobre o que fazer. Neste momento, o que importa é um debate sério e rigoroso que permita a cada país encontrar as soluções mais adequadas a sua realidade", afirmaram no artigo. "Nos últimos quatro meses, a discussão avançou mais do que em 40 anos."

O assunto é crucial para os países do continente, já que o aumento da violência na região é relacionado ao tráfico de drogas. No México, mais de 50 mil pessoas foram mortas desde que o país declarou guerra aos cartéis, em 2006.

A cúpula começa com a ausência de dois chefes de Estado: Raul Castro (Cuba), que não foi convidado, e Rafael Corrêa (Equador), que resolveu boicotar o encontro em solidariedade ao cubano. A participação de Cuba nos próximos encontros é uma exigência da maioria dos países da região, entre os quais Brasil. Os EUA, porém, relutam em aceitar. Washington alega que não há democracia em Cuba nem respeito aos direitos humanos.

Shakira. A cantora colombiana Shakira já está na Colômbia. Ela chegou de Miami, acompanhada de sua empresária, trazendo 15 malas e roubando as manchetes dos jornais locais. A namorada do zagueiro Piquet, do Barcelona, cantará amanhã durante a abertura da cúpula.

 
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