Drogas ganham espaço na Cúpula das Américas

Guatemala, apoiada discretamente por México e Colômbia, levantará a discussão sobre descriminalização, mas enfrenta forte oposição dos EUA

JULIA DUAILIBI, ENVIADA ESPECIAL / CARTAGENA, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2012 | 03h02

O encontro dos 33 chefes de Estado que participarão da Cúpula das Américas começa oficialmente amanhã, em Cartagena, na Colômbia, com uma pauta paralela que se sobrepôs à agenda oficial. A discussão sobre a descriminalização do uso das drogas é debatida por diplomatas, equipes técnicas e representantes de organismos multilaterais que já estão no balneário colombiano.

É pouco provável, no entanto, que haja uma manifestação contundente sobre o tema, discutido de maneira marginal no encontro. A declaração final da sexta reunião dos presidentes dos países das Américas, que ocorre a cada três anos, será divulgada no domingo e é tradicionalmente composta por afirmações genéricas sobre pontos praticamente consensuais, como o combate à pobreza e a fixação de metas para o desenvolvimento social e econômico.

Os três principais assuntos que dominam atualmente a agenda da região - Cuba, a crise nas Malvinas e drogas - devem ocupar espaço reduzido nas manifestações oficiais, mas o simples debate da descriminalização das drogas num fórum internacional já é apontado como uma vitória pelos defensores da medida, que vem sendo liderada pelo presidente da Guatemala, Otto Pérez Molina, com certo entusiasmo de países como o México e Colômbia - a presidente Dilma Rousseff, que chega hoje, não tem participado dos debates sobre o tema.

Em entrevista a uma emissora de TV colombiana, o presidente do país, Juan Manuel Santos, disse esperar que se "comece uma discussão objetiva, tranquila e sem a grande paixão política que desperte qualquer proposta sobre o tema". "Temos de avaliar, acima de tudo, se o que estamos fazendo é o máximo do que podemos fazer", declarou.

Anfitrião da cúpula, Santos foi cauteloso ao mencionar a questão. Afirmou que o debate oficial deve ser conduzido pela Organização das Nações Unidas (ONU), mas defendeu o início da discussão ao dizer que se deve encarar o problema e não agir como um "avestruz".

"Não se espera que saia uma estratégia, mas é um pontapé inicial. O presidente Santos quer discutir os diversos cenários possíveis. O inovador da proposta dele é que não há uma proposta", afirmou ao Estado o embaixador brasileiro na Colômbia, Antonino Mena Gonçalves.

Os Estados Unidos já avisaram que são contra a descriminalização. O presidente Barack Obama, que deve chegar à Colômbia hoje, defende a construção de alianças mais fortes entre os países na luta contra o tráfico, mas admite estar aberto a discutir propostas que se mostrem mais eficazes no combate ao crime.

No mês passado, os presidentes da América Central se encontraram na Guatemala para discutir o tema. Pérez Molina prometeu levantar a discussão durante a cúpula. Os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso, César Gaviria (Colômbia) e Ernesto Zedillo (México), que criaram em 2009 a Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia, publicaram um artigo na semana passada no qual também defendem a abordagem da questão durante o encontro.

"Desse encontro de chefes de Estado não se deve esperar soluções mágicas ou acordos imediatos sobre o que fazer. Neste momento, o que importa é um debate sério e rigoroso que permita a cada país encontrar as soluções mais adequadas a sua realidade", afirmaram no artigo. "Nos últimos quatro meses, a discussão avançou mais do que em 40 anos."

O assunto é crucial para os países do continente, já que o aumento da violência na região é relacionado ao tráfico de drogas. No México, mais de 50 mil pessoas foram mortas desde que o país declarou guerra aos cartéis, em 2006.

A cúpula começa com a ausência de dois chefes de Estado: Raúl Castro (Cuba), que não foi convidado, e Rafael Correa (Equador), que resolveu boicotar o encontro em solidariedade ao cubano. A participação de Cuba nas próximas reuniões é uma exigência da maioria dos países da região, entre os quais o Brasil. Os EUA, porém, relutam em aceitar. Washington alega que não há democracia em Cuba nem respeito aos direitos humanos.

Shakira. A cantora colombiana Shakira já está na Colômbia. Ela chegou de Miami, acompanhada de sua empresária, trazendo 15 malas e roubando as manchetes dos jornais locais. A namorada do zagueiro Gerard Piquet, do Barcelona, cantará amanhã durante a abertura da cúpula.

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