Atta Kenare/AFP
Atta Kenare/AFP

Drones iranianos e turcos nas montanhas do Iraque: revolução militar ou motivo de fuga?

Países adotam equipamentos 'revolucionários' como arma contra os rebeldes curdos, gerando temores pela segurança de civis e alimentando tensões geopolíticas

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2020 | 03h00

ANCARA  - Considerado uma "revolução" militar por especialistas, o uso de drones que Irã e Turquia vêm fazendo contra os curdos nas montanhas do norte do Iraque provocou fuga de habitantes e medo do ressurgimento de tensões regionais.

"Todos os dias você vê drones, voando tão baixo que são perceptíveis a olho nu", afirma Mohammed Hasan, prefeito de Qandil, principal reduto do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que trava uma guerrilha sangrenta em solo turco desde 1984.

Tanto o PKK quanto o Partido Democrático do Irã do Curdistão (PDK-I) fizeram do Curdistão iraquiano, autônomo desde 1991, sua retaguarda.

Para Ancara e Teerã, são grupos "terroristas" que devem ser eliminados a qualquer custo, mesmo além de suas fronteiras.

Desde 2018, os dois vizinhos do Iraque vêm opotando por drones, mais precisos que artilharia para atingir inimigos que se movem em áreas muito íngremes.

A operação Tiger's Claw, lançada em junho por Ancara, destacou essa mudança, disseram especialistas à Agência France Press.

Segundo militantes, a frequência desses ataques é tanta que obrigou os moradores de dezenas de cidades a fugir. Outros acrescentam que milhares de yazidis, dizimados e forçados a fugir pelo grupo jihadista Estado Islâmico (EI) em 2014, não voltam por medo de ataques contra o PKK, grupo presente na região das montanhas Sinyar.

Os drones são uma "revolução", disse à Agência France Press Nicholas Heras, do Instituto para o Estudo da Guerra. “Graças a esses drones, a Turquia vence sua guerra contra o PKK no norte do Iraque”, afirma.

Drones permitem localização, identificação e eliminação de alvos em poucos minutos. Além disso, são mais baratos, acrescenta Sibel Duz, um especialista nos equipamentos.

Ancara trocou seus caros F-16 americanos por drones de fabricação local, como o Bayraktar TB2, que tem três vantagens: melhores ferramentas de vigilância, autonomia de voo por 24 horas e baixo custo, detalha o especialista.

O PKK derrubou sete aeronaves turcas na região de Qandil, afirmou o porta-voz do grupo, Zagros Hiwa.

Mas a contribuição dos drones turcos, combinada com as operações terrestres, mudou a situação, reconhece ele em entrevista exclusiva à Agência France Press.

Os turcos, diz, "realizaram incursões de até 15 quilômetros no interior do Iraque" e instalaram novos postos militares na área, criando uma zona-tampão em sua fronteira.

Esses drones são de igual importância para os americanos.

Um observador dos EUA disse à Agência France Press que as forças especiais enviadas por Washington para operar secretamente no norte do Iraque viram recentemente um aumento na "frequência e intensidade" dos ataques de drones turcos.

“Os turcos sobrevoam as posições dos Estados Unidos com aparatos militares armados. É absolutamente inaceitável”, afirma.

O Irã, por sua vez, já utilizava aeronaves equipadas com câmeras durante sua guerra contra Saddam Hussein, há 40 anos.

Atualmente, seus drones Mohajer-6 e Shahed-129 monitoram, atacam e, acima de tudo, ajudam os artilheiros na precisão, explica o coronel Akbar Karimloo, encarregado pelas máquinas, em rara entrevista a uma mídia iraniana.

A maneira como o Irã usa seus drones no Iraque é "muito mais sofisticada" do que em qualquer outro lugar, confirma Adam Rawnsley, do Foreign Policy Research Institute, à Agência France Press.

Enquanto isso, no terreno, as baixas civis se acumulam sem que ninguém seja capaz de estabelecer um equilíbrio real, alerta Wim Zwijnenburg, da ONG holandesa PAX. /AFP

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