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Gilles Lapouge
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DSK no banco dos réus

Finalmente, Dominique Strauss-Kahn falou. O ex-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), que poderia ter chegado a presidente da França, respondeu às perguntas do presidente do tribunal de Lille que queria saber o que acontecia, de fato, nos encontros organizados nos palácios de Paris ou outras cidades, dos quais o próprio DSK, evidentemente, participava - junto com seus cúmplices, além de senhoras.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2015 | 02h01

Algumas dessas senhoras se encontravam também no tribunal. Elas iriam se confrontar com DSK. Seriam libertinas, ou trabalhadoras do sexo, prostitutas? Tudo gira em torno dessa indagação: Strauss-Kahn sabia ou não sabia que essas mulheres eram pagas? Se a resposta for positiva, então ele é culpado.

Ele merece o rótulo de proxeneta e será punido. No caso contrário, não há nada de repreensível: mulheres e homens adultos reuniam-se para se divertir, para uma orgia. Ora, uma orgia é talvez pecado, uma infração moral, mas não é punível pela lei.

Strauss-Kahn respondeu polidamente a todas as perguntas. Ele tem uma bela voz grave, uma calma olímpica. "Não", ele não sabia absolutamente que essas pessoas eram pagas. Entretanto, vestiam-se de uma maneira engraçada, com roupas muito coloridas.

O economista foi obrigado a explicar tudo aos juízes: as senhoras libertinas que participavam dessas festas não trapacearam. Não se fingiram de grandes damas. Por outro lado, quando ele era um dos homens mais poderosos do mundo, no FMI, afirmou que algumas mulheres se entregavam a ele sem que precisasse solicitá-las. É inacreditável o efeito que o poder e a glória exercem sobre o sexo feminino.

Strauss-Kahn jamais duvidou que essas belas senhoras estivessem lá "por algum encargo oficial". Os organizadores desses encontros, que também estavam presentes no tribunal de Lille, corroboraram as afirmações dele. Aliás, esses senhores sempre tiveram a delicadeza de ocultar que o ex-diretor do FMI fornicava com profissionais.

Deram-lhe a entender que senhoras da boa sociedade estavam simplesmente encantadas pela perspectiva de poder passar alguns momentos deliciosos com um homem tão fascinante quanto ele. Foi o que declarou Fabrice Paszkowski, um desses intermediários: "Falou-se que se ofereciam mulheres de presente a Strauss-Kahn, mas o que acontecia era o contrário. O presente era ele".

Strauss-Kahn? Um presente? Talvez, mas, tirados o celofane e as fitas douradas, o presente estava um pouco enrugado. É o que Jade afirmou no tribunal. Ela explicou que DSK a usava sem sequer falar com ela. "Libertinagem não é isso", observou. "Libertinagem é uma troca. Há uma ida e uma volta. Lá, havia apenas uma ida."

Além disso, no decorrer desta simples ida, DSK não era tão agradável. Jade não apreciava de modo algum a figura do Kama Sutra que tinha a preferência quase exclusiva de Strauss-Kahn. "Eu chorava e dizia para ele que aquilo doía muito." Interrogado sobre isso, Straus-Kahn caiu das nuvens: "Não. Nunca percebi que ela chorasse. Absolutamente. Isto me faria perder... o entusiasmo."

Por alguns instantes, esses diálogos soaram algo irreais. Desenrolavam-se na presença solene dos juízes, entre homens e mulheres que se haviam encontrado uma dúzia de vezes anteriormente, mas de maneira bem diferente. Portanto, o público do tribunal se encontrava na posição de "voyeur", posição normal no decorrer de uma orgia - a mesma de inúmeros leitores que, no mundo todo, se precipitaram sobre os relatos desse estranho processo. "Leitor hipócrita, meu semelhante, meu irmão", como dizia o grande poeta romântico francês Charles Baudelaire em sua coletânea As flores do mal.

A certa altura, imaginei Strauss-Kahn e seus três cúmplices despidos dos seus ternos elegantes, gravatas e lenços de seda. Eu os imaginei nuzinhos, a barriga um tanto flácida, correndo como cães de um corpo para outro, nas luxuosas suítes de hotéis internacionais.

Ontem de manhã, o interrogatório recomeçou. Strauss-Kahn, sempre chique, autoritário e cortês, jamais tropeçou. Ou, se tropeçou, foi por ingenuidade, por inocência. Quando respondeu aos juízes, pareceu falar consigo mesmo em voz alta. "Descobri que devo ter uma sexualidade mais rude em comparação à dos outros homens." Em suma, esse processo, seja qual for o resultado, não terá sido em vão. Terá ensinado ao ex-diretor do FMI que ele não passa de um velho porco. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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