Duas aberturas para Obama

Acordo comercial com países do Pacífico e exportação de gás natural são oportunidades preciosas para o presidente

IAN BREMMER , DAVID GORDON, THE NEW YORK TIMES, BREMMER É PRESIDENTE DO EURASIA GROUP, GORDON É ANALISTA, IAN BREMMER , DAVID GORDON, THE NEW YORK TIMES, BREMMER É PRESIDENTE DO EURASIA GROUP, GORDON É ANALISTA, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2013 | 02h07

Durante visita à Casa Branca, o premiê japonês, Shinzo Abe, conversou com o presidente Barack Obama sobre duas oportunidades que deveriam constar de sua política externa no segundo mandato: um amplo acordo comercial multinacional e o acesso às reservas de gás de xisto dos EUA. Abe espera que a melhoria dos laços entre americanos e japoneses ajude seu país a obter condições mais vantajosas para negociar um pacto comercial e novas fontes de energia.

Abe deveria deixar claro ao presidente que esses são dois trunfos dos EUA para restabelecer sua influência no mundo. Obama obteve vitórias na guerra contra a Al-Qaeda, mas conduziu a política de segurança preocupado em garantir um país mais seguro por meio da prosperidade.

Tendo isso em mente, seu governo empreendeu uma política econômica pautada pela convicção de que a expansão dos vínculos comerciais nunca foi tão importante. Obama deverá traduzir essa visão em medidas que ampliem a influência americana e estimulem o crescimento econômico. Os dois instrumentos mais importantes à sua disposição são a proposta da Parceria Trans-Pacífico e a oportunidade de aumentar as exportações de gás natural liquefeito (GNL), cujas reservas acabam de ser descobertas.

A parceria com os países do Pacífico é importante por duas razões. Primeiro, o comércio será crucial para o crescimento americano e um acordo seria de enormes proporções. Se o Japão participar, o grupo, que inclui países ocidentais, árabes e asiáticos, representará 40% do comércio mundial e 40% do PIB global.

Segundo, a parceria é a resposta correta ao capitalismo estatal da China. A ascensão de Pequim criou desafios para os EUA, particularmente pela implementação do capitalismo de Estado. Com suas estatais, seus bancos controlados pelo Estado e as empresas privadas, a China tornou mais difícil a concorrência para empresas americanas e de outros países.

A Parceria Trans-Pacífico ajudará a fazer frente à expansão do capitalismo de Estado e a estender a influência americana no Pacífico. O pacto comercial não é uma tentativa de conter a China ou bloquear seu crescimento. É um investimento no futuro do livre mercado. Também sinaliza que os EUA queremcontinuar sendo uma força estabilizadora na Ásia, mesmo que a China se torne um país mais influente.

Para que os membros da parceria concluam as negociações em outubro e para que Obama ofereça um impulso crucial, será preciso remover obstáculos em matéria de regulamentação. Destacando que prioriza a parceria e pressionando Abe a participar, ele indicará sua disposição de queimar capital político em favor do acordo.

Washington terá de se comprometer com cláusulas fundamentais, mas a parceria oferecerá aos EUA algo de que necessitam: um apoio duradouro para o intercâmbio liberal, investimentos e princípios reguladores na região mais promissora do mundo.

O outro tema, a revolução do xisto, também restabeleceria a influência americana. O crescimento sem precedentes da produção de gás dos EUA, favorecida pelos avanços da tecnologia, desencadeou uma batalha em Washington para definir quem será beneficiado. Refinarias, indústrias e consumidores querem recursos da energia barata. Os produtores querem lucrar com o acesso a novos mercados. Pela lei, o Departamento de Energia é quem determina que as exportações de GNL são de interesse público. A Europa quer comprar GNL dos EUA para reduzir a dependência da Rússia e do Irã.

Dando a nossos amigos o que eles desejam, o presidente pode promover o livre mercado, pressionar pela queda dos preços globais do gás e conter Moscou e Teerã. A razão principal para Obama fazer tudo isso é o fato de ser viável. Em questão de orçamento, reforma da imigração e controle de armas, uma enorme distância separa democratas e republicanos.

Mas se Obama se dedicar a um acordo comercial que defina o país como potência no Pacífico e a uma política energética que reforce os vínculos com aliados, ele conseguirá votos de ambos os partidos. E também terá estabelecido um legado digno em política externa. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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