Duas alianças, 26 partidos: o leque político italiano nas urnas

Duas alianças que compreendem um total de 26 partidos representativos de todo o leque político italiano, da extrema direita à extrema esquerda, se enfrentarão em uma disputa a ser decidida em cédula enorme, para conter tantos nomes. Os italianos vão às urnas no próximo domingo e segunda-feira. A Casa das Liberdades, comanda pelo primeiro-ministro Silvio Berlusconi, "il cavaliere" (o cavaleiro), tentará manter o poder na disputa eleitoral contra a União, liderada por Romano Prodi, "il professore" (o professor). Casa das Liberdades Berlusconi é apoiado por dez partidos, entre eles, evidentemente, o seu próprio Forza Itália, mas também a Aliança Nacional, de Gianfranco Fini. "Forza Itália" é o grito de guerra dos "tfosi" (torcedores) da seleção italiana, a "squadra azzurra", que Berlusconi tomou emprestado para dar nome à legenda populista que inventou na primeira metade dos anos 90, para entrar para a política. A Aliança Nacional, principal parceiro do Forza Itália no Governo, surgiu no seio do neofascismo e acabou se situando na direita conservadora. Na extrema direita, Berlusconi conta com a Liga Norte, batalhão de choque com toques racistas, comandada por Umberto Bossi e à qual pertence Roberto Calderoli, ministro sem pasta que renunciou depois de vestir uma camisa com uma caricatura de Maomé. O "cavaliere" conta ainda com outros dois partidos de postura similar: a legenda "Chama Tricolor", liderada por Luca Romagnoli, que, além de defender a pena de morte, duvida da existência de câmaras de gás na Alemanha nazista; e a Alternativa Social, de Alessandra Mussolini, neta do ditador fascista Benito Mussolini. No centro político, Berlusconi conta com dois partidos: a União Democrata-Cristã (UDC) de Pierferdinando Casini, e a DC-PSI, estranha reunião de pequenos grupos de democratas-cristãos e socialistas liderada por Gianni de Michelis. A Federação de Aposentados, o Não Euro e um dos partidos Verdes são as forças independentes que apóiam Berlusconi com objetivos particulares, e sem adesão aparente a uma ideologia tradicional. União Prodi, ex-presidente da Comissão Européia, é um adversário sem partido próprio, embora apoiado por 16 legendas dentro da União, coligação de esquerda. Os Democratas de Esquerda e a Margarida são as bases fortes do "professore". Junto aos Republicanos Europeus eles formam a Oliveira, considerada uma coalizão dentro da coalizão, que concorre unida para a Câmara, mas separada no caso do Senado. Os Democratas de Esquerda, comandados por Piero Fassino e pelo ex-primeiro-ministro Massimo D´Alema, são antigos comunistas, agora afins à social-democracia, e principal força da União. O ex-prefeito de Roma Francesco Rutelli é o chefe da Margarida, uma legenda de centro próxima a partidos do lado de Berlusconi. Um dos trunfos de Prodi é outra aliança, a Rosa no Punho, união de socialistas, liberais e radicais, com Enrico Boselli e Emma Bonino como figuras de destaque. Outro é a Refundação Comunista, comandada por Fausto Bertinotti - artífice da queda de Prodi em 1996 -, e único partido que parece estar onde sempre esteve: na extrema esquerda. Também estão com o Prodi outros Verdes; outros aposentados; a associação de consumidores Codacons; a Lista di Pietro, candidatura do antigo promotor Antonio di Pietro (estrela da operação Mãos Limpas); a União Democrática pela Europa (Udeur), de Clemente Mastella, que antes estava com Berlusconi; outros comunistas, os do PDCI; e outros social-democratas, os do PSDI. A eles unem-se os Socialistas de Craxi, separados de antigos socialistas, e uma série de partidos regionalistas: o do Tirol Sul; o da Liga pela Autonomia dos Lombardos e os da Frente Vêneto. Não é de se estranhar que, para que todos caibam na cédula, o Ministério do Interior tenha preparado uma maior do que o habitual. A cédula deste ano tem 40 por 22 centímetros. Últimas eleições Prodi, de 66 anos, e Berlusconi, de 69, se enfrentam pela segunda vez dez anos depois das eleições gerais de 1996, vencidas pelo líder da coalizão de centro-esquerda União. Aquele governo de centro-esquerda durou dois anos e Prodi foi substituído pelo ex-comunista Massimo D´Alema, na primeira vez na história da Itália em que os herdeiros do velho Partido Comunista PCI chegaram ao poder. Nas eleições seguintes, em 2001, Berlusconi obteve maioria absoluta e deixou na oposição a centro-esquerda, liderada à época por Francesco Rutelli, líder da Margarida. Berlusconi costuma se vangloriar de que seu governo foi o único a ir até o final do período constitucional, de cinco anos, em um país onde no último meio século houve mais de 50 Executivos. Prodi passou a maior parte do Governo Berlusconi em Bruxelas. Porém, uma vez concluído seu mandato como presidente da Comissão Européia (órgão executivo da União Européia), o veterano democrata-cristão voltou à Itália como o único líder capaz de aglutinar os partidos de centro e de esquerda, fortemente divididos. Reta final Podem ir às urnas 50 milhões de italianos, que elegerão o Parlamento pelo sistema proporcional e lista fechadas, imposto novamente por Berlusconi após conseguir a abolição do sistema majoritário. O sistema castiga os pequenos partidos, que são maioria na centro-esquerda. Nesse contexto, pode acontecer de a centro-esquerda dominar a Câmara dos Deputados e a centro-direita ter maioria no Senado. As últimas pesquisas dão à União de Prodi uma vantagem de entre 3,5 e 5 pontos percentuais. O total de indecisos está em aproximadamente 23%. No último debate na TV, realizado no dia 3 de abril, Berlusconi ressaltou que fazem parte da União "além dos ex-comunistas, socialistas, comunistas ortodoxos, verdes, grupos antiglobalização, radicais e personagens como o transexual Vladimir Luxuria". O nome do transexual levou Berlusconi a ironizar e afirmar que Prodi poderá governar com luxúria, que defende o consumo de drogas, e com o radical Marco Pannella, que grita "Vaticano Talibano", entre outros. Uma mistura "explosiva", segundo Berlusconi, que o impedirá de governar o país. Prodi, que não perdeu a calma, afirma que sua coalizão é sólida, firme e séria. O ex-presidente da Comissão Européia destacou nesta campanha a luta contra a sonegação de impostos, que chega a 200 bilhões de euros, e a regeneração econômica e moral do país.

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