Duas Argentinas veem debate inédito

Duas Argentinas assistirão hoje ao debate entre o governista Daniel Scioli e o conservador Mauricio Macri, em meio a uma polarização decorrente de 12 anos de kirchnerismo e acentuada pela necessidade de um segundo turno. Em uma semana, o país definirá pela primeira vez seu presidente entre dois nomes.

Rodrigo Cavalheiro, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2015 | 02h01

No primeiro turno, o representante do kirchnerismo venceu na maioria das províncias, com desempenho melhor no sul, no norte e no nordeste. Na Argentina sciolista, estão as regiões mais pobres. Macri dominou o centro, onde estão as maiores cidades: Buenos Aires, Córdoba e Rosário. A Argentina macrista é mais industrializada e ligada à produção agropecuária.

Os dois se enfrentam às 21 horas (22 horas em Brasília) na Faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, que fica na linha divisória do maior contraste social da capital argentina. A sua frente está o aristocrático bairro da Recoleta, onde Macri venceu por 69% a 14%. Nos seus fundos está a Villa 31, favela mais famosa da cidade, onde Scioli triunfou por 58% a 19%.

A torcida por Macri une duas mulheres argentinas quase vizinhas, ligadas de diferentes maneiras à moda. A costureira Fanny Alicia Domínguez, de 68 anos, vive na Villa 31. Natalia Fernández, de 32 anos, é gerente de uma loja de alta costura para cachorros na Recoleta, onde mora.

No primeiro bloco do debate, dedicado à economia, Scioli atacará o plano de Macri de levantar o controle sobre o câmbio no primeiro dia de governo (o dólar oficial está em 9,60 pesos e no paralelo é vendido a 15,50 pesos). Dirá que a desvalorização do peso atingirá o poder de compra. A costureira rebate: "Não me dá medo a desvalorização. Hoje temos uma hiperinflação disfarçada, ninguém desvalorizou a moeda mais do que esse governo", reclama Fanny, cuja renda é de 2 mil pesos (R$ 800) por mês, arregalando os olhos e gesticulando como se estivesse no palco diante de Scioli.

Sem conhecê-la, Natalia apoia os argumentos. "Não consigo entender como coisas produzidas aqui são tão caras. Para fazer um bife à milanesa, pago 120 pesos (R$ 47) pelo quilo da carne", reclama. A inflação segundo o governo é de 14%, mas consultoras a estimam em 25%. Natalia ganha cerca de 10 mil pesos (R$ 4.800 mil). Aluga um quarto em uma casa na Recoleta por 3 mil (R$ 1,2 mil) para estar perto da butique canina Amores Perros, na Rua Alvear, conhecida pelas lojas de grifes e mansões de arquitetura francesa.

Ensino. O tema do segundo bloco será educação. Este ano, estudantes municipais fizeram greve em Buenos Aires, governada por Macri, porque o teto de algumas aulas estava caindo. "Pior é o trabalho que faz o kirchnerismo, que inaugurou escolas que são cascas de nozes, vazias!", argumenta Fanny. Na Villa 31, cuja população é estimada em 40 mil habitantes, casebres empilhados já chegam a sete pisos. Fanny vive em uma construção boa, de dois andares. Se orgulha de ter criado quatro filhos sozinha e reclama de pais "que fazem filhos e os largam na rua".

Natalia crê que a razão para o declínio nos indicadores de educação é o salário dos professores. "É fácil jogar culpa neles, mas se reprovam um aluno a família ameaça pôr fogo na casa, riscar o carro, bater neles", pondera, invadindo o terceiro eixo do debate, a segurança.

Macri é acusado de manter uma polícia metropolitana truculenta. "Se a polícia não intervêm como deve, matam os policiais. Eles são trabalhadores", defende Fanny.

Natalia ressalta a impunidade. Há um mês, durante apagão de cinco dias na Recoleta, ladrões entraram na pet shop de madrugada. Roubaram um monitor, uma TV, um celular e o dinheiro do caixa. "Levaram eletrônicos, sem saber que há produtos muito mais caros", diz Natalia. Uma roupinha para um cachorro médio, com estampa marrom xadrez e forro de lã custa 630 pesos (R$ 250). Algumas bolsas custam mais de R$ 1 mil.

O último bloco tende a ser o mais complicado para Scioli: fortalecimento democrático. Com aprovação na faixa dos 40% - similar ao teto do eleitorado K -, a presidente Cristina Kirchner lançou em oito anos campanhas contra imprensa, Judiciário e usou a maioria no Congresso para aprovar leis sem concessões.

Fanny detesta Cristina por uma frase de 2012: "Só é preciso ter medo de Deus. E de mim também, um pouquinho".

Natalia vê uma democracia limitada. "Quando alguém expressa o que pensa contra o grupo que está no poder, é censurado. De que de democracia falamos?"

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