Duas ervilhas da mesma vagem

Os protestos que vêm ocorrendo na Índia e nos EUA, as duas maiores democracias do mundo, têm muito em comum

É COLUNISTA, ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2011 | 03h05

As duas maiores democracias do mundo, Índia e Estados Unidos, estão passando por momentos agudos de introspecção surpreendentemente similares. Ambos os países presenciam movimentos populares contra os excessos e a corrupção. A diferença é que os indianos estão protestando contra o que é ilegal - um sistema em que propinas são exigidas em todos os níveis do governo para qualquer coisa a ser realizada. E os americanos protestam contra o que é legal - um sistema em que o suborno é aprovado pela Suprema Corte na forma de doações de campanha que permitem ao setor de serviços financeiros comprar efetivamente o Congresso dos EUA e os dois partidos políticos, e dessa maneira resistir a medidas para conter suas apostas arriscadas.

Mas as similaridades não param aí. O que tem levado milhões de indianos às ruas, em apoio ao movimento Índia contra a Corrupção, mas também iniciativas como a da www.americanselect.org , grupo de centro que planeja usar a internet para indicar um candidato independente à presidência - é a percepção de que ambos os países elegeram democraticamente governos que estão tão comprometidos com interesses particulares que não conseguem mais impor nenhuma reforma. Portanto, ambos precisam de uma terapia de choque exterior.

A grande diferença é que, nos Estados Unidos, o movimento Ocupe Wall Street não tem nenhum líder e nenhuma demanda consensual. E embora desfrute de muito apoio passivo, sua base ativa é pequena. O movimento Índia contra a Corrupção tem milhões de seguidores e um líder carismático, o militante social Anna Hazare. Ele realizou uma greve de fome até o Parlamento indiano concordar com a indicação de um ombudsman independente, com uma equipe e poderes para investigar e instaurar processos em qualquer tipo de corrupção e em todos os níveis do governo, e isso nesta próxima legislatura. Agora um debate feroz ocorre na Índia sobre como assegurar que este ombudsman não se transforme num "Big Brother", mas a função parece que realmente será criada.

Arvind Kejriwal, que é o vice de Anna Hazare, disse-me: "Segundo Gandhi, quando você realiza um protesto, suas reivindicações devem ser bastante claras e devem deixar claro quem é a autoridade responsável para atender às demandas, de modo que os protestos devem ser dirigidos a ela". E se o movimento não tem uma liderança no início, isso não é, necessariamente, um problema, "pois com frequência os líderes surgem. Mas as demandas precisam ser muito claras", concluiu.

Um sentimento de injustiça e contra a crescente disparidade salarial, levou o movimento Ocupe Wall Street às ruas, "mas exatamente o que necessita ser feito, que leis têm de ser mudadas e de quem exigir isso?", questionou Kejriwal. "Tudo isso tem de ser respondido rapidamente."

De qualquer maneira, ainda existem muitos paralelos entre os movimentos indiano e americano. Ambos foram desencadeados por um sentimento de que a corrupção e os excessos financeiros ultrapassaram os limites. Nos Estados Unidos, apesar do fato de elementos do setor financeiro terem quase levado a economia à bancarrota em 2008, este mesmo setor ainda consegue neutralizar os esforços no sentido das reformas, pois tem muito dinheiro para controlar o Congresso. Parece que não aprendeu nada. E a sociedade está encolerizada.

E na Índia, o boom das telecomunicações e das commodities, juntamente com a urbanização que está provocando um grande aumento nos preços da terra, liberou bilhões de rupias e as autoridades que concedem os alvarás de construção e de mineração estão se fartando.

Cerca de 50 membros do alto escalão do governo foram presos recentemente acusados de vários delitos, desde a concessão do espectro das telecomunicações sem fio para amigos, o que acarretou prejuízos potenciais para o Estado que chegaram a US$ 38 bilhões, até a venda ilícita para a China de minério de ferro indiano, necessário para o desenvolvimento do país. As pessoas estão cansadas.

E como comentou o escritor indiano Chetan Bhagat no The Times of India, na segunda-feira, "nosso governo ataca todas as cruzadas anticorrupção e infelizmente até nossos partidos de oposição contam com muitas pessoas corruptas". Isso soa familiar? A democracia não necessita somente de um partido no poder que seja decente, mas também de uma oposição inteligente, o que nem a Índia nem os Estados Unidos possuem nos dias de hoje.

Sim, os indianos estão furiosos com um sistema que os obriga a pagar propina para obter uma certidão de nascimento. Os americanos estão furiosos com um sistema que considera legal os sindicatos subornarem as autoridades que decidirão sobre seus salários e os banqueiros subornarem os parlamentares que decidirão o quanto de risco eles podem assumir.

Mas ambos estão fundamentalmente ameaçados pela mesma enfermidade, muito bem captada no título do livro de Robert Kaiser sobre o lobby - So Damm Much Money (Muito dinheiro rolando, em tradução livre) - e ela hoje está sendo propagada por muito interesses particulares, a ponto de essas democracias não estarem somente sendo contagiadas por ela, mas também não conseguem se curar.

Hazare qualificou o atual momento na Índia como "a segunda luta pela independência". Acho que é uma referência que vale tanto para Índia quanto para os Estados Unidos. Penso que restabelecer nossas respectivas democracias hoje defeituosas - para que se tornem realmente instituições que permitam nossa entrada no século 21 e não sejam inibidoras, no caso da Índia, ou a "soma de todos os lobbies" no caso dos Estados Unidos - é para a nossa geração o que o movimento de independência da Índia e o movimento pelos direitos civis nos Estados foram para a geração de nossos pais. A esperança é que sejamos tão bem sucedidos. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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