Dubai começa a fechar as portas para Teerã

Pressionado, emirado árabe passa a respeitar sanções da ONU e impede que importações do Irã entrem por seus portos

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2010 | 00h00

Depois de adotar novas sanções contra o Irã, EUA e União Europeia começam a fechar as "portas do fundo" do regime de Teerã: Dubai. Há décadas, os portos dos Emirados Árabes Unidos são usados para transportar bens do Ocidente para o Irã. Mas Dubai, que enfrenta sua pior crise econômica em décadas, começa a impedir a chegada de importações iranianas em troca da simpatia do Ocidente para resolver seus problemas financeiros.

Embargos e sanções são aplicados contra o Irã há 30 anos, seja para punir o regime por atacar interesses americanos, por desrespeito aos direitos humanos e, mais recentemente, por não ser transparente com seus objetivos nucleares. Mas a parceria com Dubai fez com que 8 mil companhias iranianas abrissem escritórios nos Emirados, que passaram grande parte dos anos 80 e 90 ignorando as sanções.

Teerã comprou tudo o que precisava via Dubai. De fraldas a celulares, além de produtos brasileiros que escapam do embargo e bens tecnológicos que os EUA insistem que podem ter uso militar. Tudo que chegava ao Irã passava pelo Porto de Dubai.

Fontes nos Emirados Árabes confirmaram ao Estado que até empresas americanas furavam o embargo. Dubai é o maior destino de produtos dos EUA no Oriente Médio. Do total que entra no país árabe, 25% é reexportado para o Irã. Em 2009, o comércio entre os dois países chegou a US$ 12 bilhões. Na prática, Dubai permite a sobrevivência do regime de Teerã, garantindo o acesso a bens de consumo para a população e linhas de crédito ao governo.

Pressionado, Dubai começa agora a mudar de atitude e promete seguir as sanções da ONU. "Mandamos uma mensagem clara aos Emirados Árabes: se respeitam o direito internacional, precisam seguir as resoluções estabelecidas na ONU", afirmou um diplomata de alto escalão da diplomacia da União Europeia.

Na semana passada, autoridades dos Emirados congelaram o capital do Persia International Bank of Dubai, banco de iranianos colocado na lista dos que deveriam ser sancionadas pela UE. Outros 41 indivíduos citados pelo bloco europeu também tiveram suas contas congeladas.

A maior empresa de veículos do mundo - a multinacional japonesa Toyota - anunciou que deixará de exportar para o Irã para não afetar seus negócios nos EUA. O reflexo da decisão foi sentido em Dubai, por onde passavam 4 mil carros por ano para Teerã. "Tomamos a decisão diante da situação internacional e das sanções contra o Irã", afirmou a empresa em nota. "O mercado americano é mais importante."

"Dubai mudou de posição nos últimos meses e começou a cooperar com os EUA. Mas somente por causa da crise", afirmou Theodore Karasik, do Instituto de Análise Militar do Golfo.

Combustível. Os portos de Dubai passaram a controlar de forma mais dura o comércio de gasolina com Teerã. O Irã tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo. Mas, sem capacidade de refino, importa 40% de toda a gasolina que consome.

Contudo, nem todos em Dubai creem que seguir a linha Ocidental contra Teerã seja um benefício. Se as importações pelos portos dos Emirados são fundamentais na economia iraniana, o Irã também desempenha um papel importante para Dubai, e as sanções, agora, ameaçam complicar ainda mais a vida do emirado. O país passou por uma séria crise com a falta de crédito no mundo. Agora, começa a perder negócios com as sanções ao Irã.

"Os embargos impostos pelos países ocidentais sobre os bancos iranianos e a rejeição de linhas de créditos causaram pressões adicionais aos que trabalham em Dubai", disse Hadi Motameni, presidente do Conselho de Negócios Iranianos em Dubai. Ele alerta que Teerã não ficará parado. Importou em julho gasolina da Venezuela e começa a estudar o uso de portos na Turquia, Malásia e Indonésia para garantir seu abastecimento.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.