Duhalde acusado de complô para derrubar De la Rúa

"Em dezembro, ou antes do fim do ano, estarei na presidência da República". Este comentário - que poderia ser comum em um político argentino com grandes ambições, no meio de um período eleitoral - adquiriu uma magnitude especial porque teria sido feito em agosto de 2001, no meio do mandato do presidente Fernando de la Rúa, a quem ainda faltavam dois anos para concluir seu governo. O autor da frase seria o atual presidente, Eduardo Duhalde, sobre quem pairam suspeitas de ter organizado um complô para derrubar seu rival político, e assim, assumir o poder."El Cabezón" (O Cabeção), como é conhecido popularmente, teria pronunciado essa frase em Washington, na mansão do nicaragüense Fernando Aguirre. No encontro, do qual teriam participado Guillermo González, embaixador argentino nos EUA, e Hugo Anzorreguy, chefe da Side (o serviço secreto argentino) durante o governo do ex-presidente Carlos Menem (1989-99), Duhalde teria afirmado que se tornaria presidente da Argentina "não através de eleições em 2003, mas sim, por intermédio de uma catástrofe institucional" que causaria a queda de De la Rúa.Esta versão dos fatos surgiu semanas atrás, quando o jornalista investigativo Miguel Bonasso publicou o livro "O palácio e a rua", no qual relata o pano de fundo da queda do governo De la Rúa. Por este motivo, o juiz federal Norberto Oyarbide convocou De la Rúa para prestar depoimento sobre o suposto complô.De la Rúa confirmou a Oyarbide a versão de Bonasso, e afirmou que na época foi informado dos comentários de Duhalde. No entanto, confessou, "não lhe dei importância, pois achei que era só um comentário político, nada mais do que isso. É evidente que não calculei o tamanho das forças que se opunham a mim".O governo De la Rúa caiu em dezembro de 2001, no meio de protestos contra o "corralito" (confisco parcial dos depósitos bancários) e de uma onda de saques a comércios e supermercados. De forma geral, os analistas consideram que estes dois fatores foram os motivos do acelerado enfraquecimento de De la Rúa, que teve que renunciar no dia 20 de dezembro, fugindo às pressas em um helicóptero que decolou do telhado da Casa Rosada.Com a queda de De la Rúa, tomou posse provisoriamente o presidente do Senado, Ramón Puerta. Dois dias depois, o Congresso Nacional escolhia como novo presidente o governador de San Luis, Adolfo Rodríguez Saá. No entanto, ele durou uma semana no cargo, e teve que renunciar por causa de protestos populares e falta de respaldo político. Rodríguez Saá foi substituído pelo presidente da Câmara de Deputados, Eduardo Camaño.Dois dias depois, os parlamentares empossavam o senador Eduardo Duhalde como novo ocupante de "el sillón de Rivadavia", como é conhecida a cadeira presidencial.De forma geral, os analistas políticos consideram que a crise social e econômica foram os motivos da queda de De la Rúa. No entanto, não descartam que os saques aos comércios foram "organizados" ou que tiveram "um empurrãozinho" inicial.Esse argumento é defendido pela falta de ação da polícia da província de Buenos Aires, onde aconteceu a maioria dos saques. A província, na época, era governada por Carlos Ruckauf, que obedecia politicamente a Duhalde, que naquele momento era senador. Hoje, Ruckauf é o chanceler do governo Duhalde.Além disso, existe a suspeita de que cabos eleitorais do partido Justicialista (Peronista), o mesmo de Duhalde, na província de Buenos Aires, estiveram por trás da organização dos saques."Deve estar delirando", ironizou o porta-voz do presidente Duhalde, Luis Verdi, sobre as declarações feitas à Justiça por De la Rúa. "Ele abandonou o governo, renunciou e foi embora para sua casa indignamente, e agora também tenta justificar-se, de forma indigna".Segundo Verdi, De la Rúa "não pretende assumir sua responsabilidade por ter deixado um descalabro econômico".O juiz Oyarbide afirmou que "é possível" que o ex-presidente Raúl Alfonsín (1989-99) seja convocado a prestar depoimento sobre o caso.Oyarbide também afirmou que o próprio Duhalde poderia ser convocado, caso surjam mais elementos que reforcem a suspeita de complô. O juiz possui um total de 150 depoimentos sobre o caso, entre os quais altos funcionários do governo.Enquanto isso, a teoria conspirativa continua crescendo. Hoje, o ex-presidente Rodríguez Saá afirmou que o complô supostamente armado por Duhalde prosseguiu após a queda de De la Rúa, para provocar sua própria derrubada.Rodríguez Saá, eleito para um período-tampão de 90 dias, caiu depois de uma semana de governo, ao longo da qual foi alvo de panelaços populares e da retirada do apoio dos governadores das províncias.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.