Duhalde diz que nova crise significaria "banho de sangue"

Diante de uma platéia de duas centenas de empresários e sindicalistas, o presidente Eduardo Duhalde utilizou uma tétrica metáfora para ilustrar o que poderia acontecer com a Argentina se a recessão se aprofundar: "Se a Argentina cair mais um degrau, isso implicará um banho de sangue". Em referência aos saques a comércios ocorridos há duas semanas, Duhalde, sustentou que o país passou por "um processo anárquico incontrolável" e que por isso é necessário "mudar o rumo com urgência". Segundo ele, é preciso ?ordenar o país e conferir-lhe previsibilidade: Milagres não existem, mas deixaremos uma Argentina ordenada". O presidente disse que a classe política esteve desvinculada da população do país nos últimos 40 anos. Uma das principais lideranças do partido Justicialista (Peronista), Duhalde disse que abandonaria todos seus cargos partidários nos próximos dias. "Meu partido é a Argentina!" Como no dia de sua posse, na última terça-feira, Duhalde afirmou que o país está "quebrado, falido e muitos dos empresários presentes também estão correndo esse risco". Por este motivo, o novo presidente sustentou que sua primeira reunião extragovernamental seria com o setor produtivo, que deve governar o país. ?E isso que acabo de dizer não é um exagero. Há muitas décadas que, infelizmente, a classe política está desvinculada da produção." Com sarcasmo, Duhalde disse que se fizesse uma reunião com o que restou dos pequenos e médios empresários argentinos, todos juntos caberiam na sala de estar de sua casa. "Temos que salvar as fabriquetas que ainda existem, o pequeno comerciante, e também o grande empresário argentino." Ao mesmo tempo, Duhalde anunciou: "A aliança que a classe política teve durante décadas com o setor financeiro, está terminada". Os banqueiros, precavidamente, se haviam ausentado do evento, realizado na residência oficial de Olivos. Duhalde disparou duras críticas contra o setor financeiro, acusando-o de - junto com a classe política - ter "liquidado a classe média". Segundo o presidente, "as finanças são imprescindíveis, mas elas tem que ser colocadas em seu lugar devido". Apelando para o nacionalismo dos argentinos, Duhalde sustentou que os habitantes deste país devem dar preferência aos produtos fabricados na Argentina. Duhalde relatou que estava no Brasil em janeiro de 1999, quando o real foi desvalorizado. "Os brasileiros não pareciam interessar-se pela desvalorização", disse, em comparação com a paranóia argentina em relação a uma eventual desvalorização do peso. Enquanto os argentinos correm para o dólar, Duhalde disse que os brasileiros ficaram com os reais: ?Pareciam mais patriotas do que nós. Somos os menos nacionalistas. Temos que despertar nossa consciência nacional". Logo após o anúncio, Duhalde reuniu-se com representantes do setor de supermercados. Os empresários se comprometeram a não remarcar os preços. Segundo Ignacio De Mendiguren, ministro da Produção e ex-presidente da União Industrial (UIA), as empresas argentinas se comprometeram a não aumentar os preços acima do impacto que a desvalorização terá sobre seus custos de produção. Duhalde afirmou que a desvalorização da moeda nacional, o peso já era uma certeza. Mas esquivou-se qualquer menção à proporção que essa desvalorização terá. Segundo ele, "os detalhes" serão anunciados após a aprovação neste fim de semana, por parte do Congresso Nacional, do projeto de "Emergência Econômica", enviado nesta sexta-feira. Desta forma, o anúncio poderia ocorrer neste domingo ou ainda na segunda-feira. O projeto do governo conferiria ao Poder Executivo - durante dois anos - os poderes para estabelecer o sistema que regerá a relação de câmbio entre o peso e qualquer outra dívida estrangeira. Extra-oficialmente afirma-se que a nova relação entre o peso e o dólar seria de US$ 1 para 1,40. Esta nova paridade econômica, diferente da atual equivalência de um a um entre a moeda local e a americana, terá o respaldo das reservas do Banco Central. Segundo o projeto, as reservas do BC serão utilizadas somente para este respaldo. Além disso, para impedir um aumento das dívidas ou contratos em pesos, o projeto prevê que as pessoas que tiverem dívidas na moeda argentina, não sofrerão correções monetárias nem indexações. Um dos pontos esperados com ansiedade pela população era a passagem de contratos em dólares (70% do total das dívidas da população argentina) para pesos, o que se denomina costumeiramente de "pesificação" das dívidas. Cada dólar devido será equivalente a um peso. Isto durará 180 dias. Antes do fim deste prazo, as partes envolvidas terão que renegociar o pagamento. O projeto de lei também conferiria ao Poder Executivo a possibilidade de regular transitoriamente os preços de insumos, bens e serviços de primeira necessidade, "com o fim de proteger os direitos dos usuários e consumidores, da eventual distorção do mercado ou de ações de natureza monopólica". Apesar do fim da conversibilidade, os atuais depósitos em dólares serão protegidos. No entanto, a liberação destes depósitos para seus proprietários ocorrerá de forma gradual, ainda a ser determinada. Segundo o projeto, para diminuir o impacto que a desvalorização do peso terá na economia argentina, o governo pode estabelecer impostos sobre as exportações de combustíveis. O pacote de medidas, conhecido como o "pacote Lenicov", também implicará um duro golpe às empresas de serviços públicos privatizadas, já que revoga a lei que permitia que os ajustes de tarifas fossem realizados em dólares, e corrigidos anualmente pela inflação dos EUA. Leia o especial

Agencia Estado,

04 Janeiro 2002 | 19h45

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.