Duhalde tenta presidência após derrota histórica

?Tachuela? (Tachinha) é o apelido que os amigos e parentes usam para chamá-lo por causa de sua baixa estatutura e ampla cabeça. Mas fora desse círculo, a denominação mais freqüente e carregada de menos sutilezas é ?El Cabezón? (O Cabeção), característica que é a delícia dos chargistas argentinos. O alvo destas ironias é Eduardo Duhalde, caudilho peronista e candidato com maior chance de tomar posse como o novo presidente da República. Seu caminho ao ?sillón de Rivadavia?, como é conhecida a cadeira presidencial, foi longo e cheio de obstáculos. Sua vida política ? toda realizada dentro do partido Justicialista (Peronista) ? começou como vereador em sua cidade natal, Lomas de Zamora. Em 1983 tornou-se prefeito desta cidade, uma das maiores da Grande Buenos Aires. Em 1988, o exótico governador da província de La Rioja, Carlos Menem, almejava a presidência do país, mas para isso precisava de um homem forte na Grande Buenos Aires que fosse seu vice. O homem escolhido foi Duhalde, e juntos, chegaram ao poder em 1989. Duhalde ocupou a vice-presidência até 1991, quando deu outro grande passo, o de tornar-se governador da província de Buenos Aires. Controlar essa província implica em influir intensamente nos destinos da Argentina, já que ali habita um terço da população do país. Buenos Aires produz 36% do PIB argentino. Além disso, ocupar o cargo de governador bonaerense quase sempre causa a comichão de aspirar à presidência do país. Com esta comichão, Duhalde preparava-se para ser candidato a presidente nas eleições de 1995. No entanto, em 1994, Menem conseguiu a modificação da Constituição Nacional, o que permitiu sua reeleição. ?El Turco?, como é chamado Menem, tentou acalmar a irritação de Duhalde, afirmando em 1999, ?desta vez, sim?, o apoiaria para ocupar a Casa Rosada. Mas no início de 1999, Menem começou a mobilizar-se para alterar a Constituição mais uma vez, com a intenção de ser reeleito pela Segunda vez, esquecendo das promessas a Duhalde. Menem não conseguiu modificar a Carta Magna, mas sua aliança estratégica com seu antigo vice estava liquidada. Duhalde começou sua campanha eleitoral, sem apoio de Menem, que o saboteou constantente. Sua relação com ?El Turco? sempre foi uma relação de amor e ódio. Segundo disse a Agência Estado biógrafa não-autorizada de Menem, Olga Wornat, Duhalde admirava Menem e se sentia inferior a ele. ?Gostaria de ser assim, como ele, extrovertido. Eu sou assim, sem carisma?, confessou uma vez Duhalde a Wornat. Sem apoio do próprio chefe do peronismo na época, ?El Cabezón? perdeu para Fernando De la Rúa. A derrota foi a pior inflingida ao peronismo em toda sua História. Assessorado por uma enorme equipe comandada pelo marquetineiro brasileiro Duda Mendonça, Duhalde somente obteve 38% dos votos, enquanto que De la Rúa o esmagou com 48%. ?Sabia que perderia desde o momento em que comecei a campanha?, disse Duhalde dias depois. Alvo da chacota descarada de Menem, e arrasado pela derrota, Duhalde declarou na época: ?voltarei à docência e reabrirei o escritório de advocacia?. No peronismo, ninguém aceita perdedores, e tudo indicava que Duhalde descansaria da vida política em sua chácara. Na época, o analista político Oscar Raúl Cardoso disse: ?duvido que ele se resignará a ficar em sua chácara?. No ano que se seguiu, Duhalde somente aparecia para realizar declarações ácidas sobre sua classe: ?nós, políticos, somos todos uma m??. Simultaneamente, nunca deixou de lado a vendetta pessoal com Menem, e comemorou sua prisão em junho de 2001, por suspeitas de ter chefiado uma organização mafiosa que teria realizado o contrabando de armas para o Equador e a Croácia entre 1991 e 1995. Duhalde destituiu Menem do comando do peronismo, e criou uma diretoria nova para o partido. Depois disto, diante da decadência acelerada do governo De la Rúa, Duhalde entusiasmou-se, e candidatou-se ao senado. Em outubro de 2001, obteve uma vitória esmagadora sobre a União Cívica Radical (UCR), e elegeu-se senador. Maiô florido Descendente de bascos franceses, Duhalde nasceu em 1941 na cidade de Lomas de Zamora, na Grande Buenos Aires. Sua mãe, uma simpatizante da UCR, nunca votou nos peronistas. De família modesta, na juventude trabalhava como salva-vidas em um clube para poder pagar seus estudos. Na piscina, conheceu a Hilde ?Chiche? Duhalde, sua futura esposa. O encontro foi peculiar. Ostentanto um maiô florido, para atrair sua atenção, ?Chiche? fingiu que se afogava. Ela nega essa versão, mas Duhalde a confirma. Homem caseiro, torcedor do pouco expressivo ?Banfield?, Duhalde e Chiche conseguiram formar a imagem de uma católica família pacata de cinco filhos e filhas (uma delas é uma freira). No entanto, a imagem bucólica do casal Duhalde foi perturbada com freqüência por denúncias de corrupção e de tráfico de drogas em seu entourage. Além disso, sobraram críticas para Chiche, que durante o governo de seu marido na província de Buenos Aires, criou uma imensa estrutura de assistencialismo social, que controlava com mão de ferro. Emulando Evita Perón, Chiche controlou durante quase uma década verbas anuais de US$ 250 milhões e uma rede de 25 mil colaboradoras, as ?manzaneras?, que distribuiam comida nas áreas mais pobres da Grande Buenos Aires. As supostas conexões de Duhalde com redes mafiosas foi o centro de um livro, ?El Otro? (O Outro), que foi best-seller no ano que foi lançado, 1996. Na época, Duhalde foi entrevistado sobre as denúncias. Sua resposta, foi chorar ao vivo, para milhões de telespectadores. O autor de ?El Otro?, Hernán López Echagüe, é categórico sobre ?El Cabezón?: ?ele é uma má pessoa?. Leia o especial

Agencia Estado,

01 Janeiro 2002 | 17h50

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