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Mario Parra/EFE
Mario Parra/EFE

Duque ordena militarização de Cali devido a protestos sangrentos

Manifestações na Colômbia completam um mês; até agora, 49 mortes foram registradas

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2021 | 22h55

BOGOTÁ - O presidente colombiano Iván Duque determinou nesta sexta-feira, 28, a mobilização de tropas militares em Cali, a terceira maior cidade do país, diante do caos e de protestos que deixaram ao menos três mortos durante o dia em que se lembrou um mês de uma convulsão social inédita na Colômbia.

"A partir desta noite começa a mobilização máxima de assistência militar à polícia nacional na cidade de Cali", anunciou o presidente após chefiar um conselho de segurança na cidade de 2,2 milhões de habitantes, onde um toque de recolher noturno entrou em vigor. "Essa mobilização quase triplicará nossa capacidade em 24 horas", disse o presidente.

Pelo menos três pessoas morreram nas manifestações em Cali, incluindo um investigador da promotoria que disparou contra uma concentração "causando a morte de alguns civis", segundo a instituição. O homem, que estava de folga, foi pego em um bloqueio e acabou linchado pelos manifestantes.

Em vídeos que viralizaram foi possível ver um homem caído sobre uma poça de sangue e outro próximo com uma arma, perseguido por manifestantes. Em seguida, as imagens mostram o suposto agressor também no chão, após ter sido aparentemente linchado. A terceira vítima morreu em circunstâncias que não foram esclarecidas até o momento.

Enquanto isso, o ministério da Defesa divulgou imagens de multidões atacando edifícios públicos com pedras e explosivos artesanais nas cidades vizinhas de Popayán e Pasto.

Em um mês de levante popular, foram registradas 49 mortes, segundo a contagem oficial. A promotoria estabeleceu que pelo menos 17 dos casos estão diretamente relacionados com as manifestações, mas a ONG Human Rights Watch afirma ter "denúncias credíveis" sobre 63 mortes, 28 relacionadas com a crise.

A eclosão começou quando o governo quis impor mais impostos à classe média, atingida pela pandemia, para preencher a lacuna fiscal deixada pela emergência econômica.

Duque desistiu da proposta, mas a repressão policial aumentou os ânimos. Atualmente as ruas estão cheias de jovens sem trabalho e sem educação que pedem um Estado mais solidário diante da devastação causada pela covid-19.

Cali foi o epicentro das manifestações. Os bloqueios que atingem esta e outras cidades dividem o governo e as principais lideranças do protesto, que conversam há duas semanas sem chegar a um acordo.

Representantes do governo exigem a suspensão dos bloqueios, enquanto a Comissão Nacional de Greve, principal entidade representativa dos manifestantes, defende os "pontos de resistência" como forma de protesto e pede ao presidente que peça desculpa pelos excessos cometidos pelas forças de segurança.

Diálogo estéril

Os protestos avançaram principalmente em Bogotá, Medellín e Cali. Embora em sua maioria sejam pacíficas, as manifestações às vezes geram confrontos com as forças públicas colombianas.

"Neste mês se visibilizou a força do Estado, como age" contra os cidadãos, disse Gustavo Peña, um universitário de 22 anos que participou de manifestações em Bogotá.

"Eu me sinto orgulhoso porque meu país enfim está tendo dignidade e se levanta não a pedir nada de graça, mas oportunidades, que não haja uma distribuição tão desigual" de recursos, acrescentou em declarações à Agência France-Presse.

Protesto sustentado

As forças policiais, que na Colômbia são controladas pelo Ministério da Defesa, estão sob o ferro escaldante das críticas pelos excessos que as vinculam às mortes de manifestantes.

A comunidade internacional condenou a reação dos órgãos de segurança, enquanto as ruas clamam por uma reforma que "desmilitarize" uma força policial que há décadas luta contra guerrilheiros e narcotraficantes.

O governo garante que as manifestações foram infiltradas por vândalos e grupos armados que sobrevivem à assinatura do acordo de paz com as extintas Farc, guerrilha que se tornou partido político após meio século de fracassada luta pelo poder.

Desde que assumiu o poder em agosto de 2018, Duque enfrentou protestos sem precedentes. A pandemia extinguiu as mobilizações por um tempo, mas elas recomeçaram com força, apesar do fato de que a Colômbia enfrenta uma onda agressiva da covid-19 que tem hospitais à beira do colapso.

Enquanto isso, a desaprovação de Duque atinge níveis históricos (76%), a um ano das eleições das quais deverá sair seu sucessor. /AFP

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