Nuno Andre Ferreira/EFE
Nuno Andre Ferreira/EFE

Durão Barroso critica europeus que rejeitam imigrantes

Para ex-presidente da Comissão Europeia, será preciso intensificar a ajuda para o desenvolvimento dos países de origem dos imigrantes

Luciana Nunes Leal / RIO , O Estado de S. Paulo

01 Setembro 2015 | 16h29

RIO - O ex-primeiro-ministro de Portugal e ex-presidente da Comissão Europeia José Manuel Durão Barroso criticou nesta terça-feira, 1º,  os países europeus que resistem em receber os imigrantes clandestinos e disse que, diante da gravidade da situação, apenas ações humanitárias não são mais suficientes. Para Durão Barroso, será preciso intensificar a ajuda para o desenvolvimento dos países de origem dos imigrantes, mas ele destacou que essas nações têm de aceitar a cooperação, ou o esforço não terá resultado. 

Durão Barroso citou o caso da Hungria, onde o Exército construiu um muro na fronteira com a Sérvia para evitar o fluxo de refugiados. “Não gosto de muros”, afirmou, durante palestra na faculdade Estácio.  “Há um esforço da Comissão Europeia para que os países mostrem mais solidariedade, partilhem os refugiados. A verdade é que alguns estão dispostos, outros não. Não tenho função política, então a minha sinceridade aumenta a cada dia. A Hungria, por exemplo, é muito triste criar aquele muro. A Hungria se beneficia com a ajuda da União Europeia, recebe bilhões e bilhões de euros da União Europeia, podia partilhar alguma coisa com as pessoas que vêm de países com dificuldades”, afirmou Durão Barroso, em entrevista. 

O líder português mostrou preocupação especialmente com a situação na Síria. “A Europa já faz muito nesses países em ajuda ao desenvolvimento. Mas agora o problema tem uma magnitude maior, isso vai exigir um esforço estruturante, não pode ser só um paliativo, com os mecanismos da ajuda humanitária tradicional. Infelizmente isso não depende apenas da ajuda internacional. No caso da Síria, se não houver resposta interna, não é de fora que se consegue impor a paz. O mundo já aprendeu isso com o Iraque. Intervenções externas podem impor a guerra, mas não conseguem impor a paz. Por isso, há pessimismo com o que se passa na Síria”, disse o ex-presidente da Comissão Europeia.

“Se queremos não só ajudar as pessoas daquelas regiões, mas evitar esse fluxo incontrolável de imigração clandestina, temos que pensar que não é com medidas de polícia na Europa, mas com apoio a longo prazo ao desenvolvimento das regiões de origem desses fluxos migratórios, no Oriente Médio e também na África”, insistiu. “Temos que receber essas pessoas sem criar novos guetos”.  Barroso defendeu que sejam implementados programas para ensinar logo aos imigrantes a língua dos países que os abrigarem, para facilitar a integração e a busca por emprego.  

Durão Barroso alertou para o crescimento dos movimentos de extrema direita. “Há partidos na Europa com mensagem xenófoba e até racista, é uma ameaça que tem que ser levada a sério. Tenho pedido aos partidos do arco mais tradicional, sejam de centro-esquerda ou centro-direita, que reajam, que não vão atrás deles, que defendam um consenso democrático, plural, de abertura”, declarou. 

O ex-primeiro-ministro português também disse discordar dos partidos de extrema esquerda, como o Syriza (Grécia) e o Podemos (Espanha). “Há partidos muito críticos com a situação social em alguns países europeus, é natural. São partidos de protesto. Às vezes, a meu ver, não têm qualquer realismo. O Syriza, na Grécia, veio com discurso irrealizável, mas não é contra a democracia, os valores da tolerância. É irrealista, radical, mas não ponho no mesmo saco que a extrema direita grega, que chega a utilizar tipologia nazista (...) Não apoio as teses dos partidos de extrema esquerda como o Syriza e o Podemos. Têm razão ao mostrar indignação com o problema, mas não têm razão com a solução que propõem”, criticou. 

Sobre a crise na China, Durão Barroso disse que “a transição tinha que vir mais cedo ou mais tarde” e agora a dúvida é se “a aterrissagem será mais dura ou mais suave”. “Espero que tenha uma aterrissagem suave, porque uma constipação na China pode dar uma pneumonia em todo o mundo”, disse. “Nossos países estão a aumentar muito a exportação para a China, inclusive Portugal. Não há razão para comemorar o que está passando na China, espero que consiga ajustar-se a essa situação. A verdade é que eles não tinham tradição de economia de mercado no sentido europeu ou norte americano. Estão a se adaptar. A longo prazo, os mercados não acreditam nos que procuram o intervencionismo discricionário”, afirmou Durão Barroso.

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