Czar Dancel/REUTERS
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Duterte ameaça prender filipinos que se recusem a tomar vacina contra covid-19

Porta-voz presidencial disse nesta terça-feira, 22, que Congresso pode aprovar lei para tornar imunização obrigatória

Regine Cabato, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2021 | 15h42

MANILA - O presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, ameaçou prender qualquer pessoa que se recusar a ser vacinada contra o coronavírus, enquanto o país luta contra a desconfiança em relação aos imunizantes e a falta de suprimentos.

“Vou ordenar a prisão deles”, disse Duterte na noite de segunda-feira, 21. “Para proteger as pessoas, eu tenho que manter você na prisão. Agora escolha - seja vacinado ou irei trancá-lo em uma cela. Se você não quiser ser vacinado, vou prendê-lo e aplicar a vacina em suas nádegas”, disse ele, usando um termo vulgar.

Ele também expressou impaciência com qualquer tipo de sentimento anti-vacina. “Se você não se vacinar, saia das Filipinas. Vá para a Índia se quiser, ou para algum lugar da América”, acrescentou.

O secretário de Justiça, Menardo Guevarra, esclareceu nesta terça-feira que recusar a vacinação não é contra a lei. “Acredito que o presidente apenas usou palavras fortes para enfatizar a necessidade de sermos vacinados e alcançar a imunidade coletiva o mais rápido possível”, disse. “Como advogado, ele sabe que não ser vacinado é uma escolha legal.”

Uma mudança na lei pode estar a caminho, no entanto. O porta-voz presidencial Harry Roque disse na terça-feira que o Congresso das Filipinas poderia aprovar uma lei para obrigar a vacinação. “Precisamos de uma portaria ou lei que imponha uma pena àqueles que não quiserem ser vacinados”, disse ele, de acordo com o site de notícias Rappler. “É fácil solicitar isso ao Congresso, porque o Congresso sabe da importância da vacinação.”

Ele acrescentou que tal política também estava coberta pelos poderes de polícia do Estado. “Se falamos sobre poderes de polícia, alguns direitos são realmente violados - mas eles são violados por interesses mais amplos, neste caso, a saúde pública e a segurança.” 

Desde a pandemia, Duterte, um populista de fala dura que é mais conhecido por uma guerra sangrenta contra as drogas que deixou milhares de mortos, em grande parte respondeu à crise de saúde com punho de ferro - ordenando a prisão de violadores de quarentena e pessoas que não usavam máscaras corretamente. Sua força-tarefa pandêmica é composta principalmente por ex-generais do exército. Críticos denunciam abusos de direitos humanos e falta de evidências científicas por trás de suas políticas pandêmicas.

O presidente não inspirou muita confiança no programa de vacinas do governo, dizem seus críticos, já que ele expressou publicamenteo apoio a agentes de segurança que tomaram vacinas contrabandeadas. Duterte insistiu em ser vacinado com a Sinopharm, uma vacina chinesa que na época não havia sido aprovada localmente para uso emergencial.

Cerca de 6 em cada 10 filipinos não querem ser vacinados contra a covid-19, apesar de manifestarem preocupação em contraí-la, descobriu a Pulse Asia Research em uma pesquisa realizada no início deste ano.

O ceticismo em relação a vacinas aumentou nas Filipinas após uma controvérsia em 2017 envolvendo a vacina contra a dengue Dengvaxia, que foi administrada a milhares de estudantes em um programa de imunização em massa. Depois que a farmacêutica Sanofi Pasteur anunciou que a vacina poderia levar a casos graves de dengue entre aqueles que não haviam contraído a doença anteriormente, o Ministério Público alegou prematuramente que a vacina estava ligada à morte de algumas crianças. Seguiu-se um frenesi da mídia e um jogo político, e as taxas de vacinação despencaram, levando a surtos de sarampo e pólio.

Um obstáculo tão grande quanto este, porém, é a falta de fornecimento de vacinas. Na capital Manila, as filas se formaram antes do nascer do sol e muitos candidatos tiveram que esperar até oito horas por uma chance.

As Filipinas experimentaram um dos piores surtos de coronavírus no sudeste da Ásia no ano passado, com 1,3 milhão de casos registrados e mais de 23 mil mortes. De 108 milhões de pessoas, apenas 6,2 milhões receberam pelo menos uma dose de vacina contra o coronavírus. 

 

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