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Duterte, EUA e China

O novo presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, homem da esquerda populista, visitou a China quatro meses após sua eleição. Em 20 de outubro, proclamou sua vontade de “se divorciar dos EUA”. Alguns dias antes, afirmou que Obama é um “filho da p...”. Não se trata de uma declaração de separação banal, especialmente pelo lugar onde foi feita, Pequim. 

Gilles Lapouge *, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2016 | 05h00

Vale lembrar que as Filipinas, arquipélago com milhares de ilhas, foram uma colônia americana de 1898 a 1946 e, até a eleição de Duterte, eram uma aliada importante dos EUA nessa Ásia distante que Obama pretendia tornar novamente o “pivô da diplomacia americana”. A ameaça de Duterte será um forte elemento da geopolítica mundial, se a levarmos a sério. 

O que sabemos sobre o novo presidente filipino é inquietante. Estabelecendo como prioridade de governo a luta contra as drogas, ele tem atacado como um bruto. Em alguns meses, sua guerra contra as drogas, segundo a polícia, causou 3.700 mortes. Antes de se tornar presidente, Duterte foi prefeito da quarta maior cidade do país, Davao (1,5 milhão de habitantes) quando recebeu o apelido de “O Justiceiro”. 

Em 20 anos, mandou executar 1.700 pessoas na cidade, considerada a capital do crime no país. Ali existia um esquadrão da morte do qual, há suspeitas, Duterte teria sido o chefe. Um ex-membro desse esquadrão jurou, no Senado, ter visto Duterte jogar um homem aos crocodilos. Em seus violentos discursos, Duterte faz afirmações insanas. Ele lamentou, no caso de uma religiosa australiana violentada e morta em 1989, não ter sido o primeiro a violentá-la porque “era muito bonita”. Num outro discurso, disse invejar a reputação de Idi Amin (responsável por 300 mil mortes em Uganda) e em setembro afirmou: “Hitler massacrou 3 milhões de judeus. Aqui existem 3 milhões de drogados. Ficarei feliz em exterminá-los”. 

Esse é o personagem que anunciou que seu país vai transtornar todo o sistema de alianças de uma das regiões mais perigosas do mundo, com a diplomacia agressiva de Pequim no sudeste da Ásia. Em seu discurso na China, Duterte não só anunciou o divórcio com os EUA, mas declarou aos chineses que está alinhado com o movimento ideológico deles. Tais avanços na direção da China rompem com a tradição filipina. A China, desde 2012, ocupa o atol filipino de Scarborough, a 170 quilômetros de Manila, apesar de a Corte de Arbitragem de Haia ter negado qualquer direito histórico sobre esse atol. 

Mesmo Duterte, há alguns meses, criticou a arrogância chinesa. Hoje, se aproxima da China. É bom dizer que Pequim fez o que era necessário. Prometeu amplos investimentos nas Filipinas. E, enquanto os EUA denunciam os métodos sangrentos da luta de Duterte contra as drogas, Pequim, pelo contrário, apoia o governo filipino na luta contra o tráfico, o terrorismo, a criminalidade e se dispõe a colaborar. 

Essa mudança de linha das Filipinas, se confirmada, fragiliza seriamente a diplomacia de Obama - e num momento em que a posição americana no Pacífico se enfraquece diante da aliança emergente entre russos e chineses. Ao adotar uma atitude dura com relação à Rússia, a Europa favorece o reencontro entre Moscou e Pequim - um grande paradoxo, já que a Rússia é, histórica e culturalmente, mais europeia que asiática. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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