Jonathan Ernst/Reuters
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Em orçamento de Biden, dúvida é se gastos se sustentam no médio e longo prazos; leia análise

Negociações em torno do plano de infraestrutura demonstram que a Casa Branca ainda precisa convencer a sociedade que os gastos públicos devem ser ampliados para seguir seu projeto de transformar a economia dos EUA 

Denilde Holzhacker e Raphael Videira, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2021 | 05h00

No seu primeiro pedido de orçamento, Joe Biden explicitou suas prioridades e reafirmou a ambiciosa proposta de investimento governamental apresentada ao longo dos primeiros 100 dias do seu governo, quando anunciou pacotes de estímulo que afetam diversos setores econômicos. O primeiro pacote, assinado em março, previa cerca de US$ 1,9 trilhão e apresentava foco nas medidas para combater a crise causada pela pandemia de covid-19 nos EUA. Já em abril, o governo lançou o Plano das Famílias Americanas – que consiste em gastos de aproximadamente US$ 1 trilhão, incluindo isenções fiscais de cerca de US$ 800 bilhões. 

As áreas prioritárias deste plano abordam desde assistência à infância (pagamento de creches), investimentos em educação (bolsas de estudo para universidades), licenças médicas, entre outros pontos. No mesmo mês, foi lançado o Plano de Empregos Americanos, contemplando diversos setores e estimado em cerca de US$ 2,25 trilhões. Esse plano prevê gastos em áreas como infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento em energia limpa e redução de emissão de carbono.

Apesar da visão favorável que seu governo tem alcançado junto à opinião pública e a diferentes setores da sociedade, persistem dúvidas sobre como os planos serão financiados e sua sustentabilidade no longo prazo. Segundo cálculos da Casa Branca, com a reforma tributária, as empresas e os cidadãos de alta renda recolheriam impostos com uma alíquota maior. Esse excesso de receita seria usado para cobrir os gastos adicionais destes planos, visto que o orçamento proposto pela Casa Branca elevará a posição do déficit para cerca de US$ 1,3 trilhão e a relação dívida/PIB para um patamar superior a 100%. 

Para os líderes republicanos, o plano de gastos de Biden compromete a sustentação do governo no longo prazo e demonstra uma posição de resistência à proposta americana. As negociações sobre o plano de infraestrutura colocam democratas e republicanos em lados opostos, especialmente sobre a elevação de impostos.

Tais planos contribuem para o aumento do crescimento da economia de forma forte no curto prazo. No médio e no longo prazos, tal crescimento poderia apresentar relativa desaceleração a partir do momento em que os estímulos monetários propostos pelo FED começassem a ser retirados. Mas os estímulos poderiam ser compensados por um aumento da capacidade de oferta como resultado do plano em si. 

De qualquer forma, o governo deverá lidar com o crescimento da dívida pública para patamares próximos de 120% do PIB, o que pode indicar uma subestimação do risco fiscal e mesmo das pressões inflacionárias que os EUA já estão vivenciando. Biden tem apoio dos democratas para aprovação do orçamento, mas encontrará resistência dos republicanos sobre o tamanho da dívida pública e o aumento de impostos. As negociações em torno do plano de infraestrutura demonstram que a Casa Branca ainda precisa convencer a sociedade que os gastos públicos devem ser ampliados para seguir seu projeto de transformar a economia dos EUA. 

*HOLZHACKER É COORDENADORA DO NÚCLEO DE ESTUDOS E NEGÓCIOS AMERICANOS DA ESPM. VIDEIRA É COORDENADOR DO CENTRO DE ECONOMIA & MERCADOS DA ESPM

 

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