Dúvida no Egito é quem vai liderar reforma, diz analista

Após a renúncia do presidente do Egito, Hosni Mubarak, os militares devem buscar num primeiro momento fortalecer seu controle sobre o país e pedirão novamente aos manifestantes que voltem para suas casas, afirmou o cientista político e professor de Relações Internacionais Heni Ozi Cukier, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em entrevista por telefone.

GABRIEL BUENO DA COSTA, Agência Estado

11 de fevereiro de 2011 | 16h19

Com a saída de Mubarak, porém, abre-se um período de incertezas, com várias dúvidas sobre o futuro, em meio à pressão popular por reformas democráticas. "Há mais dúvidas do que respostas", nota Cukier, comentando a queda do presidente, que estava no poder desde 1981.

Em 18 dias de protestos, desde 25 de janeiro, a população forçou Mubarak, de 82 anos, a deixar a presidência. O anúncio da renúncia foi feito esta tarde pelo vice-presidente, Omar Suleiman. Segundo o vice, Mubarak entregou o poder aos militares. As Forças Armadas, aliás, já tinham um papel crucial durante os protestos e devem se manter como atores fundamentais.

Entre as dúvidas que se colocam para o futuro do Egito, está a de quem serão os atores responsáveis por participar do processo de reforma política. Cukier diz que ainda é preciso saber se o Parlamento será dissolvido, e que papel a Irmandade Muçulmana, principal força da oposição, pode ter. Outra questão em aberto é qual será o papel do exército posteriormente.

Inicialmente, as eleições presidenciais estavam marcadas para setembro. Para o professor da ESPM, porém, não é possível afirmar que haverá eleições nesta data, pois isso dependerá de quais reformas ocorrerão e do ritmo delas.

Hoje tornou-se um dia de protestos e depois de festa no Egito. Após as orações do tradicional dia muçulmano de preces semanais, dezenas de milhares foram às ruas pedir novamente o fim do governo de Mubarak. Com a renúncia, a multidão comemorava nas ruas. Para Cukier, porém, depois da festa o exército deve pedir que a população encerre suas manifestações, deixe as ruas e volte à vida normal.

O professor da ESPM concedeu duas entrevistas à Agência Estado hoje, uma delas ainda antes da saída de Mubarak. "Os militares estão preocupados em preservar o regime", afirmou o analista antes da queda do presidente. Cukier ressaltou, porém, que a meta do comando militar era manter a estrutura atual, e não necessariamente Mubarak no posto. Segundo o especialista, Mubarak prosseguia no poder não apenas por teimosia, mas também apoiado por todas as forças políticas e militares que se beneficiavam com sua liderança.

Cokier vê os militares em uma situação delicada, pois se movimentam para não perderem seu poder, com presença também em vários setores da economia. Ontem, um comunicado do Conselho Supremo das Forças Armadas afirmou que iria "apoiar as demandas legítimas do povo". Hoje, porém, o exército pediu que a população retomasse suas atividades normais, notando que apoiaria as reformas anunciadas por Mubarak. O presidente chegou a transferir ontem parte de seus poderes para o vice, Suleiman, mas os manifestantes não se contentaram e voltaram às ruas.

Com a renúncia de Mubarak, a Constituição egípcia prevê, segundo o professor, que o presidente da Câmara assuma - o posto de vice-presidente foi criado há poucos dias, já em meio à crise política - e também a realização de eleições em 60 dias. Agora, porém, é possível que a Carta do país seja reescrita e a data da eleição alterada.

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