Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

E a Al-Qaeda?

Na indústria da barbárie, o progresso nunca para. Em alguns meses, o Estado Islâmico (EI) instalou a lei da morte no "califado", vasto território entre o norte do Iraque e o norte da Síria. Sua irrupção selvagem desbotou a lembrança do grupo sunita Al-Qaeda, a sinistra organização de Osama bin Laden que destruiu as torres gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2014 | 02h01

É bem verdade que a Al-Qaeda, desde a morte de seu criador, Osama bin Laden, caiu um pouco no esquecimento, o que criou um "vazio" no horror, vazio que o também sunita Estado Islâmico se apressou em preencher capturando dezenas de cidades iraquianas e sírias, cometendo massacres e decapitando inocentes, entre eles americanos e franceses.

Alguns analistas ocidentais comparam os dois "campeões". Geralmente é o "califado" do Estado Islâmico que leva a medalha, não de ouro, mas de sangue. Mas se é verdade que o pessoal do EI vai de vento em popa, seria ilusório acreditar que a Al-Qaeda se evaporou para não perturbar seu irmão gêmeo também monstruoso. Na verdade, a Al-Qaeda respondeu à ascensão do poderio do "califado" produzindo "metástases".

Uma delas é o grupo Khorasan que prospera na Síria e cuja existência só há pouco tempo ficou conhecida. Mas o que o EI tem de escandaloso, o Khorasan tem de discreto. Nada de vídeos, de comunicados, de profecias de ameaças públicas. Com o Khorasan é ação. Sangue.

Os americanos temem os integrantes do Khorosan tanto quanto temem os do EI e ainda mais. O diretor de Segurança Nacional dos Estados Unidos, James Clapper, escreveu: "Eles são mais perigosos do que o Estado Islâmico para os Estados Unidos ou a Europa. Formados por veteranos da Al-Qaeda, eles são silenciosos. Não estão na Síria para estabelecer um 'califado'. O Khorasan tem um objetivo: atacar o Ocidente".

O chefe do Khorasan é conhecido, Mushin al-Fadhli. Ele foi íntimo de Bin Laden e um dos poucos a ser informado sobre a realização dos atentados do 11 de Setembro. Fugindo do Afeganistão, ele se estabeleceu na Arábia Saudita. Foi reencontrado na Síria em 2013 onde se aproximou de outras figuras da Al-Qaeda.

O grupo Khorasan possui na Síria um aliado, outra "metástase" da Al-Qaeda, a Frente al-Nusra, cujo chefe é Abu Mohammed al-Julani, que proclamou sua obediência ao sucessor de Bin Laden, Ayman al-Zawahiri. Temos, então, de um lado a Frente al-Nusra e o grupo Khorasan, que se dizem herdeiros de Bin Laden, e de outro, o EI que se autoproclamou chefe mundial da jihad e cortou laços com a Al-Qaeda.

Eis por que o Estado Islâmico está em conflito aberto com a Frente al-Nusra e o Khorasan. Alguns rumores afirmam que, na verdade, entre a al-Nusra e o Khorasan também haveria ciúmes, rivalidades, talvez uma futura guerra. Por que não? As criaturas que saem do ovo imundo entredevoram-se com prazer.

O grupo Khorasan tem uma especialidade: os explosivos. Ele se beneficiou nesta arte das lições de um dos melhores artífices do mundo, Ibrahim al-Aziri, que pertence a uma outra "filial" da Al-Qaeda, a Aqpa, no Iêmen. Esse Ibrahim é um gênio. Ele é capaz de transformar um cartucho de computador numa bomba. Graças a ele, quando viajamos de avião para os Estados Unidos já não podemos levar nossos telefones ou computadores com baterias descarregadas.

Enfim, em meio aos pseudópodes da Al-Qaeda, convém não esquecer a Al-Qaeda do Magreb Islâmico, (Aqmi) que se entrincheirou no norte do Mali de onde os soldados franceses a desalojaram em 2013. A Aqmi reconstituiu-se no sul da Líbia, que agora se transformou num vasto caos.

Por um momento, acreditou-se que os assassinos do guia turístico francês capturado nas montanhas da região da Cabília, na Argélia, pertenciam à Aqmi. Mas não. Esse bando rejeitou o apadrinhamento da Al-Qaeda para prestar obediência ao "califado" do EI.

Mas se é verdade que a Al-Qaeda ainda possui muitos remanescentes, hoje é o Estado Islâmico que seduz os jovens desesperados, os jovens frenéticos da jihad. De todo modo, uma coisa é certa. Os terroristas pululam. A morte não ficará sem mão de obra tão cedo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.