E a América Latina?

Se os 590 milhões de latino-americanos pudessem votar, a eleição para presidente dos EUA já estaria liquidada. Barack Obama seria reeleito com folga e foguetório. O presidente americano pode estar na berlinda em casa, mas, segundo Latinobarómetro, nenhum chefe de Estado no Hemisfério Ocidental ostenta a aprovação do presidente americano.

Mac Margolis,

03 de novembro de 2012 | 22h28

Escolhemos bem? Há controvérsias. As relações entre as Américas compõem um enredo contraditório, com tintas de ressentimento, expectativas exageradas, miopia mútua e baita indiferença. A história é cumprida, mas basta rebobinar até a década passada para apreciar sua dimensão.

O novo milênio nas Américas raiou com mistura de desconfiança e otimismo. A primeira luz veio de Washington, quando o recém-eleito George W. Bush anunciou, arranhando um espanhol razoável, um novo namoro com a região, embalado com loas à democracia e à prosperidade comercial. Para selar o pacto, enviou o prestigiado general Colin Powell para a cúpula dos Estados Americanos em Lima, no Peru. Foi no dia 11 de setembro de 2001 – e o resto é uma história de bodas frustradas.

Enquanto Washington ocupava-se com a guerra ao terror, as outras Américas assistiam sentadas a uma querela alheia. Data dali o colapso da ascendência americana na região, personificada por Bush, que com suas frequentes gafes e arroubas de falcão ("Missão cumprida!", bradou à tropa, em meio à conflagração iraquiana) se tornou alvo fácil de chacota. Melhor para o venezuelano Hugo Chávez, que capitalizava para sua revolução bolivariana cada tropeço do gringo.

Quando em 2008 surgiu Obama dos escombros, o alívio era continental. Com bela fala e sintonizado com nosso complexo mundo multipolar, o jovem democrata prometia um "upgrade" da era Bush e, logo em 2009, acenou para um recomeço na vizinhança.

De lá para cá, pouco mudou. É emblemático que o encanto latino-americano com Obama ainda resista à timidez da sua agenda para as Américas. Adoramos detestar tudo que lembra à era Bush, inclusive seu pretenso herdeiro, Mitt Romney. Mas são da gestão republicana as maiores iniciativas para América Latina dos últimos tempos. Entre elas, os tratados de livre comércio para Panamá e Colômbia. Até então esses mesmos pactos mofavam no Congresso por determinação da maioria democrata.

Os partidários de Obama camuflavam seu franco protecionismo com piedades sobre os hermanos trabalhadores latinos, estes supostamente ameaçados pelo livre comércio. (Um evidente contrassenso, já que é a falta de acesso aos mercados e não o seu excesso que mais tolhe o bem-estar latino.) Sim, foi Obama que resgatou os tratados latinos e os enviou para aprovação do Congresso, mas só após a surra que levou nas urnas em 2010, quando a oposição conquistou o controle da Câmara e forçou a barra comercial.

Tamanha indiferença da Casa Branca não garante que Romney seja a melhor aposta para a região. Sim, coube a ele o único aceno da campanha para o mundo abaixo do litoral do Estado de Flórida. "Estamos totalmente centrados na China. América Latina é uma enorme oportunidade para nós", disse o republicano no último debate, sem réplica nem eco de Obama. Há quem ainda aplauda o currículo de Romney, um republicano moderado, que governou o Massachusetts com pragmatismo.

Mas Romney não ascendeu pela força própria. Temperou seu discurso ao paladar dos republicanos, partido tomado pela truculência e pequenez, que na ânsia de derrubar Obama quase levou a nação ao calote histórico. Também subscreveu a macumba econômica ao pregar a guerra total ao épico déficit público sem aumentar imposto algum.

O evangelho espelha o fundamentalismo de seus patrocinadores, mas pode atrapalhar seu governo ao colocá-lo em rota de colisão com a metade do país que pelas pesquisas deve votar em Obama, e também com o Partido Democrata, que deve continuar majoritário no Congresso.

Com a casa dividida, as melhores propostas da política e diplomacia americanas podem parar no engarrafamento de Washington. Vença quem vencer na terça-feira, mais uma vez, América Latina pode ficar como figurante da história americana.

É COLUNISTA DO ‘ESTADO’, CORRESPONDENTE DA ‘NEWSWEEK’ E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS

 

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